
Ou isto ou aquilo?, dúvida lançada por Cecília Meireles.
Ser ou não ser?, dúvida de Hamlet, personagem de Shakespeare.
Ser ou ter?, dúvida de quem ainda está procurando uma 'agulha no palheiro'...
A maioria de nós quebrando as cucas para ser isso ou aquilo, e sendo o que não podemos ser...
Verbo ser, é aquele verbo pirado, que transita para estar, para ter, para não-ser...
Descartes disse que Penso, logo existo, portanto logo sou, e a loucura continua com Parmênides, que disse que Ser é igual a não-ser porque só os que são têm a opção de não-serem...
Oh, vida! Oh, Céus! Que raios é ser, então?
Talvez ser goste de brincar de pique-esconde...
Ou cisme de ser o próprio Deus, com a sua capacidade invejável da ubiquidade!...
Agora digo que sou professora; verbo sincero pra quem?
Pra quem viu meu diploma e observou-me em sala de aula.
E se eu, numa dessas filas imensas, estressantes, diga para o meu imediato da frente que sou médica esteticista?
Começo a dar dicas de melhor plástica e distribuo até panfletos de qualquer amiga minha que é, verdadeiramente, aquilo que eu 'afirmo' exercer?
- Oh, ela sabe tudo de medicina, logo ela é médica...
Verbo ser é um verbo bem volúvel, frágil porque sou há um segundo o que no próximo posso desistir de dar prosseguimento!
Uma colega minha era pobre e morava num dos bairros adjacentes.
Agora ela é melhor de vida e se mandou daqui; será que ainda mete o malho nos políticos?
Verbo tão desvairado, que o melhor seria a pessoa dizer: Estou!
Nesse ponto concordo com a língua inglesa, que comete seus desfalques com a riqueza que deveria ter gramaticalmente falando, mas que contribui de maneira não confusa com a inconstância do verbo ser ou estar: para ambos recorre-se ao famigerado To be.
I'm a teacher= Eu sou ou estou professora...
Se o fatídico verbo ser, ele que está em 99% do que se é escrito no mundo, se resumisse a apenas a essa palhaçadinha de pular para estar de vez em quando, até que eu poderia 'engoli-lo'.
Só que sabemos, por prática maledicente e cruel, que o verbo ser é mais ardiloso do que se pode imaginar...
Verbo ser é o mesmo que o verbo ter!
Mais um - Oh!- vigoroso lanço no ar...
É, gente, não basta ser remédio, tem que curar.
Não basta ser, tem que ter...
Uma pessoa diz:
- Sou a moradora daquela casa ali!
- Qual casa? - a outra pergunta.
- Aquela amarela, de esquina...
Entretanto, a 'casa amarela, de esquina', é velha, com a tinta descascando, não tem sinal de fausto, muito menos de dinheiro investido...
E se a casa é, mas não tem, logo você também é, e não tem, causando sua eliminação de ser por não ter!
Quando alguém esbarra comigo na rua, depois de anos sem me ver, após aqueles cumprimentos e trocas de rapapés quase sempre falsos, a primeira pergunta é:
- Está trabalhando onde agora?
Respondo que é num colégio, ambiente de labuta minha de toda a vida...
-Ainda???? - me responde, com ar de indignação o meu interlocutor.
Ser ou estar num colégio subentende-se aquele sofrimento tradicional do magistério, da falta de grana típica, 'que já vem malhada antes de eu nascer'. Falta de dinheiro significa não-ter, e não ter é não-ser...
Se alguma colega minha se casa, sempre (S-E-M-P-R-E!!!!) alguém quer saber se o escolhido para o casório é bem colocado (tradução para os avoados: se tem grana!).
Raramente (R-A-R-A-M-E-N-T-E!!!!) alguém indaga se o cara é bom caráter, se é uma pessoa justa, se é um sujeito trabalhador...
E se alguma criatura, com um insight, defende o lado valoroso do eleito, alguém rebate:
- Ele é legal, sim,vai ser um ótimo marido! Pena que não tem dinheiro...
O injustiçado Hamlet, aquele texto teatral, o clássico dos clássicos de William Shakespeare, que levou a fama de obra intrínseca, de difícil entendimento, é mais compreensível do que a política do ser-ter.
Jovem e ingênuo, o príncipe Hamlet só queria entender o que é ser!
Na mesma proporção que o príncipe se auto martirizava com o crânio de seu empregado em uma de suas mãos, o antigo bobo da corte que antes o preenchia de júbilo e risadas fáceis, aquele mesmo bobo da corte, lhe enchia naquele momento os olhos e o coração de lágrimas fartas, porque é duro, forte demais saber que a mesma criatura que traz o calor dos dias de glória, é a mesma que traz o frio da eternidade cinzenta...
Sendo ou estando, seja, não se importe tanto em ter!
Porque ter não explica quem você é ou está.
Ter toma partido da frivolidade do ser, um casamento feito 'por interesse', às pressas, por aqueles que querem ser o que não podem ser...
Seja, esteja, mas não tenha!
Quando o verbo ser não acompanha o verbo ter, repare que há mais valorização do ser.
É satisfatório conversar com uma pessoa durante horas e não saber o que ela tem!
Fabuloso pra mim saber que alguém é bem educado(a), que é meu(a) amigo(a), que é tão GENTE que não se importa com o que eu tenha...
Por isso que certas amizades não funcionam!
Descobrimos que a pessoa tem e não é, preocupada que está em vender o produto chamado Eu mesmo(a)...
Droga! Se ela, ele, o(a ) Eu mesmo(a) soubesse que a qualificação do verbo ser-ter pouco importa quando não-somos mais, a pessoa em questão (Eis a questão!), sendo ou não sendo, iria gostar de continuar com a brincadeira inicial.
Verbo ser pode ser generoso quando o encaramos como transitividade divertida.
Ser? Estar?
Tranquilo pra mim!
Uma dubiedade aceitável entendendo que tudo muda , tudo passa, "Nada se cria, tudo se transforma".
Ser ou estar é bom presságio, dá noção de um futuro mais grandioso.
Porque ninguém deve querer sair de um estado de coisa para se tornar inferior.
Seja, esteja, repito a você!
Desde que esse ser, estar, traduza automaticamente em Ser...
... humano!
(Imagem:
Fonte desconhecida
Edição de imagem:
http://marymiranda-fatosdefato.blogspot.com)








