PARA QUEM AMA GATOS

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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Carolina, A Alta


Conto de hoje: Carolina, A Alta, da antologia  Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, mais uma publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!



CAROLINA, A ALTA


Saíra de frente do espelho, há poucos minutos, a complexada Carolina.
Tinha ido verificar se a espinha perto do queixo tinha sumido, e se a blusa do uniforme estava amarrotada.
Toda a sua dúvida fora confirmada. A espinha estava por lá, vermelha, com uma “coleguinha” purulenta perto da boca, e a blusa tão amassada, que aludia a um  trator que a tivesse triturado. “Eu nunca estou arrumada...”, pensou tristemente Carol. Disfarçou as espinhas com base, e a blusa, passou de novo. Era o drama  da garota dentro do seu cotidiano.
Costumava ser perturbada na escola por tudo: por ser magra demais, por não ter mochila irada, por ser muito alta, mais até que os meninos, por ainda não ter namorado, por usar óculos, por às vezes saber o que os professores perguntavam e, às vezes, por exatamente não saber, por ser estabanada e, principalmente, por ser tímida. Sua vida escolar estava longe de ser lembrada com saudade quando dela saísse.
Ela só tinha 13 anos.
Nessa idade a escola se apresenta da maneira mais cruel, quando não há o encaixe nos padrões. Carolina se sentia uma desajustada.
Acontecia uma gincana na escola onde estudava, que premiava o aluno ou aluna que pontuasse com as tarefas sorteadas. No final, quem tivesse o maior número de pontos, ganharia. Quem apenas a cumpria, recebia 5 pontos; quem cumpria melhor que o seu concorrente, 10. Eram tarefas das mais disparatadas possíveis, onde envolvia desde teste de conhecimento, até aspectos do dia a dia. Foi a maneira que a diretoria criou para não ofender os discentes. Todos poderiam participar, independentemente de posses ou sabedoria além. De alguma forma, estavam passando a ideia de inclusão.
O prêmio era um passeio ao Pão de Açúcar, com todas as despesas pagas, incluindo almoço e lanche. Tinha que levar acompanhante adulto, no caso, o responsável.
Para formular as tarefas, houve uma reunião pedagógica; seriam marcados sorteios ocasionais destas para estabelecer o novo procedimento.
Na quarta-feira, as turmas estavam abarrotando o pátio na espera do resultado do sorteio, que era feito na frente deles, sempre neste dia da semana, no recreio.
  O que será desta vez, ahn? – era a inspetora de disciplina, escolhida para tirar o papel de uma caixa de papelão mal disfarçada com papel silhueta. Por fora, escrito
o óbvio: “Gincana”.
A maioria riu, quando o sorteio revelou que os participantes teriam que levar o veterinário mais idoso ainda em atividade até a terça-feira que vem. Muitos deles confundiram o profissional que cuida de animais com o próprio pet.
   Não posso trazer meu cachorro, não? Ele é bem velhinho... – um deles perguntou.
Risos mais altos passaram a ser facilmente audíveis no local. Carolina gostou.
Conhecia uma veterinária já em idade avançada que atendia em um Posto da Prefeitura, que vacinava, limpava, dava ração, recebia doações, resgatava animais de rua; fazia o inimaginável para uma vida realmente digna para os chamados irracionais.
A menina mesma cansava de levar seus muitos cães para o tratamento com aquela profissional. Pela Prefeitura, saía mais barato; quando particular, o preço não se alterava muito.
Na terça seguinte, estava lá Carol e a idosa veterinária. Além de excelente no que fazia pró animais, a senhora também gostava de gente. Quis colaborar com a menina.
Não deu outra: 10 pontos conquistados sem quase concorrência.
Só um colega levara um homem estilo “Só cuido de bicho porque é a minha formação acadêmica”, que mal passava dos quarenta. Sorte dupla de Carol pois até se fosse no critério simpatia, sua convidada teria conquistado a pontuação máxima.
Gincanas são sempre motivo de enorme disputa, ainda mais que, por mais manjado seja o Pão de Açúcar, simboliza um passeio cobiçável, um prêmio a ser colocado na lista.
Muitos estudantes estavam empatados em pontuação, incluindo Carolina.
Houve uma vez que quiseram “comprar” a menina, a única que possuía o item pedido no sorteio. Uma raridade; por estar nessa categoria, tomou ares de relíquia.
Era um álbum de figurinhas do pai, jogado no mofo do armário de madeira de um quarto no quintal, tão obscuro, que a lâmpada estava cansada de não ser trocada.
O álbum pedido tinha que ser de figurinhas, deveria ter, no mínimo, vinte anos, estar completo e em bom estado de conservação. A observação do item era interessantíssima: não poderia ser nada que aludisse a futebol.
Por muita sorte dela, o pai tinha tido um gosto por coleção em sua adolescência. Foi custoso e demorou muito, mas conseguira preencher um álbum que trazia aspectos geográficos e históricos sobre o Brasil, de 1977. Sorte igualmente era o livro não ter se deteriorado no meio daquele caos de folhas e ferramentas.
Sem querer comentou com uma colega de cadeira vizinha, roedora de lápis, que o possuía, para sua vida não ter mais sossego.
Rapidamente, os colegas de sala descobriram que Carol existia.
Todo dia era uma “cantada” diferente, promessas de mundo de sonhos e cores, bem irresistíveis para uma garota extremamente tímida, que via naquela conversa, um jeito de ser integrada.
“Se você me der o álbum, eu vou te passar cola na hora da prova!”
“Você não liga tanto assim para essa gincana; liga? Deixa o álbum comigo, que eu te faço um penteado irado! Você vai ficar uma gata!”
“É verdade que você tem esse álbum mesmo? Traz aí, deixa eu dar só uma olhadinha... Se me agradar, te pago cinco reais!”
“Carolzinha, querida! Vem lanchar com a gente! Você está tão sozinha... Senta aqui! Gente, a Carolzinha tem um álbum que a escola está pedindo! Ela não é uma fofa? Até prometeu que vai me dar o álbum, né? Aí eu te dou minha bolsa de cachorrinho dálmata, que eu descobri que você gosta...”
Tudo muito encantador e altamente inebriante. Como saber se seria ou não apenas um embuste enquanto ela fosse útil? Mas eram ofertas a serem pensadas (menos a da cola, porque o garoto que lhe ofereceu, era uma cavalgadura...).
Nada se comparava, porém, ao convite de um certo menino de quinze anos que iria para o Ensino Médio no ano seguinte. Era um dos populares da escola, um daqueles dos suspiros e “Ai, eu nunca vou conseguir...” Simpático, mas inatingível de um modo geral.
A maior graça de seu convite, é que não tinha nada a ver com o famigerado álbum, e viera de uma casualidade. Ela se sentia honrada e superior.
Bebia ele um refrigerante na cantina e oferecera à Carol: “Quer? Pago um pra você!”
Quase sem abrir a boca, respondeu: “Não, obrigada! Já lanchei!”
“Ah, tudo bem.” – vendo-a se afastar: – “Vai ter uma festa aqui na quadra do colégio neste sábado, você deve saber. Vai vir?”
“Talvez. Vou pensar...”
Naturalmente, ela foi. Envergonhada num vestido mais curto que o usual, mas com esforço, saiu de casa para ver melhor o seu paquera de última hora.
Rigorosos com a segurança do colégio, mesmo os estudantes eram revistados pelos inspetores de disciplina antes de entrarem.
Solitário, sentado perto de um bebedouro que estava escangalhado e saía água em dois guinchos ineficientes, estava o crush de Carol, parecendo esperá-la.
A aproximação de ambos fora imediata, e logo estavam dançando, mesmo que ela não soubesse dançar, compartilhando sorrisos, trocando olhares de namoro, juntando as mãos, trocando beijos: o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto da vida da adolescente de treze anos. Estava apaixonada; como o manual dos novatos em romance parecia todos lerem.
Ela quase o ultrapassava em altura, mas envergava um pouco a coluna, para não constrangê-lo. Nada poderia estragar sua noite. Nada.
Sem disfarce, as colegas a invejaram. E os meninos enxergaram uma beleza na garota, que usualmente vendia sem-gracice.
Na hora de ir embora, o rapaz se oferecera levá-la em casa, ela que morava perto, e ambos poderiam ir a pé. Ele seria buscado pela mãe mais tarde, de carro.
Ficaram se beijando no portão, ele um pouco mais ousado, alisando-a por baixo do sutiã rosa. Sentiu o corpo todo bailar no toque, jamais tendo nenhuma conexão com o desconhecido como naquele momento. Um desconhecido que descobrira ali que queria conhecer.
“Já vai entrar? Fica mais um pouco!”
E mais uma rodada de beijos e amassos, Carol quase perdendo o fôlego:
“Está tarde. Minha mãe vai ficar preocupada...” – ao conseguir desapartar-se um tanto.
“Entendo. Mas, Carol, você podia fazer uma coisa?” “O quê?” – perguntou sorrindo a menina.
“Dava pra me mostrar o álbum, aquele de figurinhas? Só ver, um pouquinho só...”
Carolina era tímida, reservada, e todos os adjetivos que se aplicam a pessoas que não são expansivas.
No entanto, tinha uma qualidade que muitos costumam ignorar em relação aos muito quietos: era observadora.
Os tímidos têm a sensibilidade de notar a mudança mínima de um tom na fala, de um gesto diferente que não condiz com o discurso ou a situação.
Eis ali o comentário infeliz de um adolescente idiota. Estragou a noite de uma garota que pensava apenas em vivenciar as bonanças dentro das tempestades de sua idade.
“Não, de jeito nenhum! Você vai vê-lo lá na terça-feira, que é dia de eu levar para a escola...”
Com a fisionomia de desapontamento, o rapaz se despediu, sem mais procurar Carol. Tinha investido pesado, na concepção dele, encarar uma esquelética  daquela, que nem sabia dançar... E alta feito uma girafa! Fora um “sacrifício” imenso para o interesseiro execrável.


Muitos álbuns de figurinha chegaram às mãos dos organizadores da gincana, numa tentativa desesperada dos alunos em burlar as regras do jogo.
Entretanto, todos foram desaprovados: seus álbuns não chegavam nem a cinco anos, e nem completos estavam.
Carolina abocanhou 10 pontos sem dificuldades, sabendo do resultado por antecedência. Só a luta de todos para enrolá-la, já provava o valor do que tinha em mãos.
O raro álbum de seu pai, com mais de trinta anos de existência, voltara ao quarto bagunçado do quintal. Como consolo para o livro ilustrado, Carolina resolveu trocar  a lâmpada e limpar o ambiente de vez em quando...
As espinhas não tinham sido bem disfarçadas, mas a blusa continuava passada com desvelo. A intuição de Carolina dizia que aquele seria um dia inesquecível.
Última rodada da gincana.
O empate envolvia muitos colegas, e se essa igualdade persistisse na pontuação final, a diretoria iria sortear uma tarefa atrás de outra, até que pudesse ser realizada ali na hora. Quem a fizesse atingindo a pontuação maior, ganharia.
Um vozerio, até a diretora usar o microfone e pedir silêncio. Do contrário, anularia a gincana e, consequentemente, a premiação.
Com a paz retomada no pátio, chamou um a um dos concorrentes empatados. Carol subiu no palco improvisado junto aos demais, com o coração aos pinotes. Todo mundo atento ao que a inspetora diria ao microfone ao retirar o papelzinho. Até quem não concorria mais, estava curioso.
Aquela folha de nada, enrolada com mãos apressadas, pequena e objetiva, a primeira retirada, sem necessidade de insistência, definiu quem iria ao Pão de Açúcar, de um jeito tão banal, que Carolina ficou pensando se não seria uma brincadeira de muito mau gosto de sua sina, porque ela sempre fora uma tonta que nem sabia disfarçar umas espinhas direito.
  “O aluno mais baixo”. Bem, vale só para quem chegou à final, ok, galera? – explicou a inspetora. – Vamos lá medir um a um?
Apareceu uma fita métrica de repente, mas nessa hora Carol já estava correndo pátio afora, chorando desabaladamente. “Tinham logo que sortear aspecto físico...
Por que não sortearam quem tinha maior espinha?”, ironizou mentalmente, entre as lágrimas salgadas.
Descobriu no outro dia, como dava para perceber pelo convívio, que a  vencedora era uma colega meio arrogante, que pintava os lábios como pintasse o mundo, de tão exagerada ficava a maquiagem. Era muito baixa, e parecia que não cresceria mais, a ver pelo seu histórico genético. O mesmo poderia se dizer de Carol, mas num contexto de uma genética ao contrário da outra.
Sua altura a atrapalhara ainda por muitas vezes. Um 1,86m. que não era amistoso.
Não era pelos apelidos maldosos, pelo espanto de namorados que não gostavam de moças mais altas, porque não havia muitas sandálias delicadas de tamanho 42, por causa da escassez de camas grandes que não deixassem seus  pés para fora ao dormir quando viajava, devido ao resumido universo de profissões que sugeriam que ela tivesse: “Você perde tempo! Poderia jogar basquete ou vôlei”! Ou: “Por que não se inscreve num curso de modelo?”
Carol não queria nada disso. Só queria ser ela, a não tão tímida assim, que não precisava mais usar óculos por ter corrigido seu astigmatismo.
Ainda magra, porém, isso não a aborrecia. Aos 22 anos, não tinha mais espinhas.
Não era nem bonita, nem feia. Uma jovem mulher como outra, que sonha com um futuro melhor. Era simples conseguir, e ao mesmo tempo, complexo.
Tinha se casado, aos dezenove, com um cara que preferia mulheres bem altas.
Quando conheceu Carol, praticamente se casou com seu 1,86m.
Ela, por sua vez, gostou dele por ser legal. Simples, sem complexidade.
O Pão de Açúcar visitou uma vez, com a mãe, temerosa em cair. Teve que tomar ansiolítico antes de entrar no Bondinho.
A alta com acrofobia, uma ironia difícil de digerir.
Trabalhava sentada o dia inteiro, atendendo telefone. Daquela forma, pouca gente sabia sobre as suas altas dimensões.
Carol tinha crescido otimista, uma diferença que saltava aos olhos de quem a conhecera na infância e adolescência.
Nada de derrotismo. Carolina procurava ver o lado bom das situações sem pieguice; ela tinha consciência que nem tudo eram flores.
Quando perguntavam se ela gostava de ser tão alta, dizia que não. E logo sorria, explicando com o que tinha virado sua auto piada invariável:
“Mas ser alta tem suas vantagens. Eu não tenho dificuldade para alcançar as alças que ficam próximas do teto do ônibus, quando viajo em pé... E troco muitas lâmpadas sem precisar usar escada!...”
Dizia, automaticamente, ajeitando melhor, sua sandália plataforma salto 15.


Quem quiser ler todos os contos antecipadamente, é só clicar no link do site Mary Difatto

(Imagem:

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Um Homem e Sua Fidelidade




Preparado(a) para mais um conto?
O de hoje chama-se Um Homem e sua Fidelidade.
Relembrando que esse trabalho faz parte da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, um conto novo para você!
Bons "imprevistos de viagem"!




UM HOMEM E SUA FIDELIDADE



Ele era um daqueles homens casados; do trabalho para a casa, da casa para o trabalho.
Vagner era casado na consciência plena do que é ser casado. Dos sérios que levavam a sério os preceitos conjugais como cumprimento de contrato assinado.
Dos poucos que usavam aliança, a ajeitava, nos momentos de “perigo” feito arma, para espantar supostas pretendentes. Era só ver alguma mulher interessada nele, exibia o anel de aro grosso de ouro maciço no anular esquerdo, apoiando a mão no rosto, fingindo cofiar uma barba inexistente. Logo virava o corpo inteiro para o outro lado, e se sentia “vingado”.
Era casado. Há quatorze anos. Tinha três filhos. Um adolescente e duas meninas.
Não era religioso, e nem teve bons exemplos em família, de casamentos felizes.
O pai era do tipo mulherengo, que não parava com parceiras por mais de seis meses.
Casado de morar junto com alguém, seu pai tivera uns sete relacionamentos.
Fora os arremedos de romance extraconjugais.
A mãe não era leviana. Até fazia o tipo bem responsável, aquela que todo  mundo define como mulher de família.
Mas, mesmo ela, não transmitia um modelo matrimonial para o filho se espelhar. Por pura falta de sorte, seus relacionamentos se mostravam conturbados, o que a levava a dar um ponto final. Estava naquela época no seu terceiro casamento que, por já durar perto de trinta e cinco anos, parecia ser o mais aproximado do ideal de uma relação, ao menos, estável. Quanto a isso, ninguém poderia dizer nada além.
Neste cenário de romances fugazes ou não, Vagner tinha oito meios-irmãos.
No entanto, só gostava realmente de um: o filho que sua mãe teve com o italiano com quem estava casada atualmente. Ele era inteligente, falastrão, gesticulava, tinha bom humor. A diferença de idade entre eles era de nove anos, contando que Vagner era o mais velho, com seus 39, e o rapaz, 30. Sempre apoiava Vagner em tudo, o ajudava, sempre por perto para o que desse e viesse. Um irmão. Sem o meio.
Qualquer um afirmaria que Vagner tinha obsessão por fidelidade, para não ter que passar pelos mesmos problemas que os pais; por ele trazer em si uma ojeriza só em imaginar ter filhos de múltiplos envolvimentos amorosos.
Mas, não. Não era isso.
Ele era correto. Gostava de tudo muito certo, e até previsível, à conclusão que sempre chegava nas muitas vezes que se auto questionava.
“Por que não ser fiel num relacionamento conjugal? Por que fica todo mundo achando estranho quando digo que não cobiço mulher nenhuma? Por que algumas colegas ficam me aborrecendo para tomar chopinho na volta do trabalho? Por que eu tenho que trair?”
Conhecia a história dos amigos. Todos tinham amantes por toda a parte. Contavam particularidades mais picantes, de tamanho, de fundura, de cor, de penugem, de vezes, e até de não vezes...
Era de costume uma gargalhada indecente sobre esses fatos, uma sublimação dos feitos como se as mulheres fossem prêmios, independentemente do quanto de tempo eles levassem para conquistá-las. Vagner só fazia ouvir. Ele tinha filhas...
Na fábrica onde trabalhava, seu horário era o matutino. Pegava de seis às quatorze horas.
Como o seu tempo na empresa beirava quase vinte anos, fora promovido a supervisor de produção, com o salário um tanto maior que o dos seus colegas o que, por um motivo muito válido, não lhes causava inveja: ele sempre liberava, junto ao RH, aqueles que precisassem sair mais cedo.
Sabia que muitos ali inventavam desculpas, mas deixava passar. A única ressalva que fazia é que só poderia ter aquela conduta uma vez por mês, se não, seria ele chamado a atenção. Vagner também obedecia ao seu superior, o gerente, um cara meio mal-humorado, que não era tão condescendente quanto ele.
Ocorreu que, para cobrir o afastamento do supervisor da tarde – que saíra para se tratar de hérnia de disco -– estava sendo obrigado a estender sua jornada trabalhista até as 18 horas, onde o da noite também pegava mais cedo, para ajudar por aquele período.
Ele não gostou nada da mudança, mas era necessário. Mal iniciando essa nova rotina, já teve gente pedindo:
  Posso sair mais cedo hoje? É que estou tratando dos dentes, sabe? A minha dentista só tem hora a partir das 4...
  Você já marcou com muita antecedência?
  Não... Na verdade, é... nem marquei. É que eu sei que ela está com a agenda cheia...
Balançando a cabeça em desaprovação, Vagner, que não tinha motivo algum para manter uma cordialidade a mais com aqueles funcionários, já que não teria contato com nenhum deles por muito tempo, se limitou a dizer apenas, sem comiseração:
  Sinto muito – com gravidade na voz –, mas eu não posso permitir qualquer um sair, só porque quer ir resolver problemas pessoais. Ainda mais que, no seu caso, nem agendado está o seu compromisso...
  Mas eu ia lá para saber se dá para ser atendido!
  Use o telefone na hora do almoço. Marque primeiro! Não posso abrir exceção para ninguém. – sentindo que o funcionário iria falar algo insistente: – Marque primeiro. Aí, sim, posso pensar no seu caso. Sem marcar, não tem conversa. Simples assim!
Sentindo-se ofendido, o rapaz resmungou, de maneira quase inaudível, se afastando:
  Se fosse o nosso supervisor, ele não ia nem perguntar o motivo!... Vagner escutou, e comentou baixinho, o suficiente para o funcionário ouvir:
   Se fosse o seu supervisor, você não teria nem começado a falar. Conheço bem a fama dele por aqui...
No final daquela semana arrastada, já na sexta-feira, onde Vagner demonstrava visíveis sinais de cansaço (acordava todos os dias às 4h30min., tendo aumentada mais quatro horas em sua jornada), resolveu se atrasar, deliberadamente, para o turno vespertino. Deixou avisado com as meninas do escritório, e se permitiu um longo almoço, deitando-se no refeitório numa esteira usual de quem queria tirar um sono pós refeição. Ficou sozinho e feliz.
De repente acordou, sobressaltado, caçando qualquer objeto que informasse as horas. E existiam vários, a começar pelo grande relógio vermelho redondo pendurado acima da mesa dos funcionários.
“Caraca! 4h13min... Era para eu dormir, mas não tanto...”
Levantou-se às carreiras, lavou o rosto, deu uns tapinhas intercalando as faces para despertar, penteou os cabelos. Ajeitou a camisa branca social, apertando o cinto que afrouxara ao deitar-se, logo em seguida. Quando resolveu descansar, não queria que nada o apertasse. Até mesmo a aliança tinha tirado do dedo e colocado no bolso da calça.
Ao entrar no vasto salão onde se produzia cosméticos, Vagner notou que a barulheira característica o avisava que ainda não estava em vigília de todo: um mundo explodia em sua cabeça naquela hora. “Eu daria tudo para estar em casa...”
Parecendo ansioso, lá vinha novamente o mesmo funcionário do seu primeiro  dia vespertino, aquele da dentista não marcada, meio bufando por ter corrido. Havia largado a máquina de etiquetar, para comunicar ao supervisor:
   Foi  até  bom  o senhor aparecer.    Tem uma moça aí que veio estagiar na empresa. Ela queria falar só com o senhor.
  Estagiar? No que ela está se formando?
  Em Administração de Empresas. Disse ela que escolheu essa fábrica porque fica perto de casa. Daqui a pouco vai estar de volta...
Encolhendo os ombros, Vagner só balbuciou:
  ‘Tá bem. Conversamos quando retornar... Obrigado!
O rapaz deu um sorriso, e voltou ao serviço. Naquele momento, o supervisor teve um estalo de simpatia por ele. Percebeu que o funcionário era do tipo que gostava de boa vida na empresa, mas que também fazia o gênero colaborador. Um cara que joga a letra para ver se forma palavra, apenas isso...
“Agora  essa...     Estagiária! Logo hoje que eu não estou legal, com a cara amassada... Se ela fizer anotações falando mal da empresa? Merda... Logo hoje!...”
Não demorou muito para entrar uma moça perto dos 30 anos, parecendo bem objetiva ao encaminhar-se até o supervisor:
  É você o Vagner?
Ele estava virado de lado, num esmero de elegância e limpeza, com o rosto demonstrando maior atividade; o ar sonolento fugira há meia hora.
Com uma prancheta providencial para vender imagem de líder sério, respondeu:
  Sou eu mesmo! Com quem eu falo?
   Meu nome é Monalisa, e tenho interesse em estagiar aqui. Estou me formando, faltam só dois períodos. Moro perto...
    Monalisa... Você não fugiu do quadro não, né? – pilheriou ele, com delicadeza. Mesmo assim, achou que ultrapassara os limites: – Ah, me desculpe a brincadeira. É que é irresistível...
Ela sorriu. Sorriu abrindo dimensões reprováveis em um certo coração. Sorriso inebriante. Sorriso...
   Todo mundo brinca com o meu nome, fique tranquilo! Na verdade, quando meus pais o escolheram, já fizeram a propósito. Foi um jeito bem legal para ninguém esquecer dele...
Ele sorriu timidamente, grudando com o olhar, na boca do sorriso fascinante. Voltando ao profissionalismo, perguntou solenemente:
  Mas, Monalisa, como posso ajudá-la?
  Eu preciso passar, ao menos um mês, 3 vezes por semana, em uma empresa, para saber como é a rotina de gerenciamento. Saber como lidar com os  funcionários, como preencher fichas, estar a par dos problemas e soluções, e tudo o mais. Sentir o clima de uma empresa, sabe como é?
  Sei. Bem, você pode vir. Mas eu vou poder assinar os papéis de estágio?
Acho melhor falar com o gerente...
  Não precisa. É qualquer pessoa da empresa que seja chefe do seu setor. Você não é o responsável pela supervisão? Sua carteira não é assinada como supervisor?
  Sim! – disparou com avidez.
             –  Então, sem problemas. Como eu te disse, meu curso só quer que eu  esteja  no clima de trabalho na minha área, para quando eu tiver a minha própria empresa. Apesar de eu já ter uma, bem pequena, e experiência também, eles querem que alguém assine por isso...
   Ótimo! – falou Vagner, animado. – É só agendar direitinho, os dias e os horários, que eu te receberei com o maior prazer!
  Posso começar agora?
O supervisor engasgou-se, mas de maneira contornável. Temia que a moça percebesse alguma irregularidade.
  Pode, sim! – já recomposto – Fique à vontade!
Monalisa correu os olhos em tudo, estranhando ter conseguido manter uma conversa, mesmo com o vozerio ensurdecedor.
“Nasci para isso! Só pode ser...”, riu consigo mesma.
Por sua vez, Vagner utilizou-se de sua prancheta para se “esconder”. Estava atônito, mas não podia demonstrar. Fingiu fazer anotações inadiáveis, correndo de um lado ao outro, passando coordenadas, franzindo as sobrancelhas, vendendo imagem de concentração.
No fim do expediente, Monalisa deu um tchau, sumindo-se com a tranquilidade de quem mora muito perto, que chegaria na hora adequada para tomar um banho, jantar e rumar-se para a faculdade.
Mais do que imaginava, a estagiária ficou nos pensamentos de Vagner, por tempo bem mais além do aceitável.
Ela voltaria na segunda, às 16h., cumprindo com a meta das 3 vezes semanais, sempre no mesmo horário.
Vagner passou o fim de semana inteiro afoito pelo novo encontro. “Só estou curioso. Eu nunca tive estagiários...”, desculpou-se.
Às segundas, quartas e sextas Vagner retirava a aliança. Ao contrário de todas as outras mulheres - para as quais fazia questão de exibi-la-, para Monalisa optava em estar “descompromissado”, dando pinceladas de sua vida, como falar da filha de onze anos, sem sugerir conexão marital com ninguém; dava a impressão de que a menina era fruto de um relacionamento dentro de uma solteirice mais animada.
O sorriso, uma constante de Monalisa, bailava aberto e afável a cada comentário inteligente dele, que era um homem que parecia saber das coisas.
  Você já tem uma pequena empresa, não é mesmo?
Estavam conversando na hora do lanche rápido de quinze minutos.
  É, de roupas e bolsas. Mas nem pequena é. Podemos chamá-la de loja de quintal. A minha mãe que toma conta quando não estou.
  É uma pequena empresa, sim, por que não? Não esqueça que muita gente enriqueceu começando com micros negócios, envolvendo a família inteira. Todos cresceram juntos!
   Se você está falando, está falado!... – o tom de voz dela funcionou para Vagner como sensualidade. Monalisa estava paquerando o supervisor.
  Está na hora de voltarmos, né? – avisou Vagner.
  Ãhan. Bem na hora mesmo... – ela também pressentiu que aquele caminho estava mal trilhado. Era melhor ir com calma.
   Com o passar dos dias, Vagner se pegou usando as melhores calças, as melhores camisas - ele que não precisava usar uniforme - e infamemente, pedia à esposa para passar com afinco suas roupas, sobretudo nos dias da Monalisa na fábrica.
A mulher não estranhava porque pensava ser algo a ver com a vigilância sanitária, que averiguava todos os setores, desde o funcionamento correto de produção, até mesmo as vestes dos funcionários.
Vagner e Monalisa se encontravam no costumeiro refeitório, um tanto vazio na hora que iam. Sempre se sentavam de frente um para o outro, e Vagner carregava a prancheta consigo.
  Vou ficar mais dois meses aqui, Vagner. – informou a moça, bebericando o café extremamente quente. – Fui conferir com a minha professora, e ela disse que eu terei que cumprir com uma carga horária maior de estágio, para eu não ficar dependente depois. Achei meio chato, mas ainda bem que você é um cara super maneiro!
  Por mim, não me importo. O negócio é você cumprir direitinho para não dar rolo. Essas burocracias é que atrapalham...
Fez um discurso o mais profissional possível, para não transparecer contentamento.
  Agora você já sabe que vai ter que me aguentar por mais tempo...
Ao acabar de falar, Monalisa sorriu. Sorriso franco, entorpecedor, de alguma deusa existente ou inventada, não misterioso como a da Gioconda, a inspiradora de seu nome. Sorriso magnífico, inebriante. Existente ou inventada, ela era a deusa Sorriso Perfeito.
Logo, com um pouco mais de dias, Vagner descobriu-se apaixonado: “Não posso, sou casado...”
Ele era um homem correto. Tinha se definido assim por várias vezes.
Mas era algo novo que se abria em sua existência, e ele precisava estar ciente de tudo. Porque o julgavam sapiente e um cara correto, o suficiente para procurar soluções quando estas não estavam ao alcance. É assim que agem os homens verdadeiramente corretos.
Foi se aconselhar com o único irmão reconhecido por ele:
  Tenho uma coisa que quero desabafar contigo, e não é de hoje...
O filho do italiano assistia ao jogo de futebol na internet, de transmissão ao vivo, do campeonato europeu. Era brasileiro e se sentia assim, mas a Itália tinha um lugar poderoso em seu coração.
  Deixa só terminar esse lance, só esse, ‘tá? Se o Juventus tomar um gol agora, está fora do campeonato...
Dito e feito. Saiu o tal gol, e o Juventus, time favorito do irmão de Vagner, estava fora. Ficou praguejando uns minutos, para logo cumprir o que afirmara ao mano mais velho:
  Que bicho ‘tá pegando, rapá? Há muito tempo não te via assim...
  Uma parada meio sinistra... – riu de si mesmo Vagner, que não era dado a gírias, mas que perto do irmão, aflorava nele essa nuance no seu linguajar.
  Pode falar...
Vagner ajustou-se melhor no sofá, desafiado por um olhar profundo do irmão, o
único sem o meio. Foi logo no alvo de suas dúvidas:
  Seja sincero: você já traiu a sua mulher? O irmão era casado há cinco anos.
  Claro! – respondeu sem titubear – Por que? Você não?
A resposta pronta e imediata surpreendeu negativamente o irmão mais velho:
  Não... Nunca! Será que é tão óbvio assim um homem trair sua mulher?
  Faz parte da vida, cara, desde que o mundo é mundo... É natural! O irmão mais velho continuava surpreso:
  Mas você começou a trair quando? Foi logo depois que casou?
  No início, não; o casamento era novidade. Depois de um ano mais ou menos, aí eu comecei a conhecer umas minas, e começou a rolar... Não parei mais!
   Eu jurava que você amasse sua mulher... – comentou Vagner, totalmente abismado.
  E o que o amor tem a ver com isso? Meu amor por ela é inabalável, a mulher mais incrível que já conheci! Mas nada me impede de dar minhas voltinhas, né? – observou o rosto abalado que o fitava com ar de desespero - Por que você está me perguntando tudo isso?
   Por que, pela primeira vez, eu penso em trair. – interrompeu-se – Estou perdidamente apaixonado. Apaixonado de pedra!...
Resolveu contar toda a história ao irmão, que o ouvia atentamente, sem interrompê-lo uma só vez sequer. Era difícil ver Vagner sem controle, sobretudo em relação às coisas do coração.
  O que devo fazer? Estou apaixonado, apaixonado mesmo... Até mais: estou amando aquela garota! Muito, muito mesmo... – explicou Vagner, no término de sua retórica.
  Simples: – respondeu o irmão – fica com ela! Não precisa se separar de sua mulher. Fica com ela enquanto estiver legal, sacou? Vai levando em banho-maria... Só não deixa essa mina escapar. Depois, você vai se arrepender para o resto da vida...
  Isso não está certo! Sou um homem sério. Sempre fui fiel...
  Você pediu minha opinião, e estou te mandando uma real: fica com essa mina!
Se não, você nunca vai se perdoar, segue a minha dica!...
Quando Vagner nem se dava conta, o estágio de Monalisa chegava ao fim, mais ou menos no período que o supervisor da tarde estava para retornar.
  Hoje é o meu último dia, como você sabe. – Monalisa ressaltava a informação no final do expediente, roendo um biscoito amanteigado que trouxera de casa. Parecia insatisfeita, falando aquelas palavras quase que soprando por entre os dentes.
  Você se saiu muito bem! – elogiou comedidamente o supervisor – Reparei que você tem capacidade de liderança, e sabe contornar chateações com  os funcionários de maneira exemplar! Na área de avaliação, de um dos ofícios que  você me entregou, eu coloquei que você está inteiramente apta para administrar qualquer empresa.
  Obrigada! Você tem sido um amor!...
  Imagine! Você merece! É responsável, centrada, ágil, correta... “E tem sorriso de deusa, a deusa Sorriso Perfeito”, pensou ele, que abanou a ideia tão logo a formou. – Sua loja vai prosperar, você vai ver!
Não tinha muito o que dizer. Monalisa apenas sorriu e olhou fundo nos olhos do seu não mais responsável pelo setor que estagiara. Agora a sua frente estava ele, simplesmente Vagner, o homem que estava preenchendo seus sonhos de todas as noites.
Era preciso coragem. E ela teve. Ficou feliz por o nosso tempo ser outro, longe daqueles em que ela iria se calar no anonimato do sentimento solitário:
– Vamos sair qualquer dia? Sem compromisso, só para a gente conversar um pouco...
Vagner estava dignamente trajado. Tinha pedido à mulher para separar a camisa que mais gostava, verde, de botão, que cobria um tanto o cotovelo, e ele mesmo fora ao armário para procurar a calça branca, que casava magnificamente bem com a verde camisa. O tênis era um mocassim preto, que alguns definiam como sapatênis. Daquele modo, estava apresentado ao mundo, como as pessoas usualmente chamam de galã.
Vendo aquele sorriso, o sorriso da deusa Sorriso Perfeito, enxergando nos seus olhos um futuro que poderia ter, de motivação, de trocas de experiências, de aprender melhores formas de liderança e gerenciamento, na empresa e na vida, do quanto ele poderia ter a paz do reconhecimento da igual ao seu lado, um mundo de não-traições, porque a ela seria fiel por amor, não por ser correto, Vagner baqueou em sua ideologia da correção.
Talvez seu irmão estivesse certo, ao dizer que ele se arrependeria se não tentasse algo com Monalisa.
Talvez o correto fosse se entregar aos sentimentos porque eram de uma profunda limpeza em sua alma.
Talvez uma simples saída com uma mulher não se configurasse em erro.
Talvez trair a esposa – que não amava desde sempre; só casou-se com ela porque engravidou – não mudasse os critérios de correto, pressuposto na letra fria da lei conjugal.
Contudo, na ligação automática que os homens corretos fazem com o que a mente treinara por hábito, Vagner colocou a mão no bolso direito, e de lá tirou a aliança de ouro, uma aliança grossa, pesada, maciçamente opressiva para desavisadas que flertam com homens casados, sem saberem que eles são.
Ajeitou-a no dedo anular esquerdo, exibindo do mesmo modo que fazia sempre, ao perceber que havia uma mulher interessada em romance.
  Sou casado... Não posso!... Mas, boa sorte na sua loja! Monalisa esmoreceu o sorriso. Na hora. Para sempre. Para ele.
Saiu trôpega, feito bêbada, e lançou ao ar apenas um amarelo tchau. Estava magoada, indubitavelmente sentida. Monalisa se sentia traída.
“Tantas vezes a gente conversou... Por que ele não disse que era casado? Por que nunca usou aliança antes perto de mim? Por que esse miserável fez isso comigo?”
Vagner contava com setenta e oito anos, quando soube que Monalisa tinha ganhado mais um dos cobiçados prêmios de melhor empresária do ano.
Sua empresa de roupas e bolsas tinha progredido o suficiente para ela formar uma cadeia de lojas, no Brasil e até no exterior.
Estava em todas as mídias; era um exemplo de empreendedora honesta e ser humano solidário. Abraçava muitas causas nobres.
Era casada com um também empreendedor importante, e estava encaminhando a filha do meio para ser sua herdeira. Tinha dois netinhos, ainda crianças, que adorava.
Ele, Vagner, também tinha netos. Meninos bons e inteligentes. Só um era um pouco rebelde, mas nada que levasse a preocupações noturnas tiradoras de sono.
Estava aposentado da mesma empresa onde trabalhara por toda a vida. De supervisor, passou a gerente, e por ali, ficou.
Seu salário era o bastante para aguentar as contas do mês, e até trocar de carro de três em três anos.
Era uma vida boa. Normal. Correta.
Nunca mais esbarrara com Monalisa, em lugar algum, nem mesmo no bairro do endereço da fábrica, ela que morava ali perto. A ela, Vagner procurara – e por muito tempo ainda –, depois do seu último dia de estágio.
“Monalisa era correta. Ela não quis ficar comigo sabendo que eu era casado. Não insistiu, como muitas fazem. Ela era correta...”, se remoeu ainda por longos anos Vagner.
De toda a dor que o supervisor da fábrica onde estagiara Monalisa sentia, havia uma que nunca passava. Nunca, nunca, nunca passava.
Era a dor de uma não-resposta, o que a alma joga para baixo do tapete mental e retorna, porque a poeira do tempo é implacável com o que não se encaixa na razão.
Triste admitir que ele não sabia, por todo o tempo que transcorreu em sua trajetória de vida desde que conhecera Monalisa, que ele não sabia, não sabia, não sabia mesmo – e isso doía feito ferida exposta – a quem, nessa história toda, ele tinha sido realmente fiel...




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(Imagem:

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Política e Politicagem



Conto de hoje:  Política e Politicagem, de Mary Difatto, da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA.
Toda quinta-feira.
É só chegar!



POLÍTICA E POLITICAGEM


Trabalho de escola era um tormento para aquela garota de quatorze anos.
Detestava.
Quando um dos professores dizia: “Trabalho para entregar na semana que vem”, ficava carrancuda, pelo menos naquele dia do triste anúncio.
Arrumava um jeito de esquecer, indo tagarelar com as colegas pelos aplicativos do smartphone ou nas redes sociais, comendo mais polenta – adorava! –, dedilhando algo ao piano que não aprendera a tocar bem, mas servia de distração ou, apesar de ter medo, andando pelas ruas caçando Pokémon (ela que quase fora atropelada uma vez quando tentava “pegar” um mais longe). Tudo, menos pensar em afazeres escolares dentro de seu lar.
Daquela vez a professora de História tinha extrapolado, na visão dela.
O tema escolhido era político, e a menina detestava política. “Eu não vou ser ministra nem nada!”, pensava consigo mesma. Mas era o assunto do momento, as investigações sobre desvios de verba no Governo, a corrupção que vinha à tona, e uma prisão de líderes representativos do povo e seus afins, praticamente todos os dias. A professora queria um contraponto da corrupção que ocorria atualmente, com a feita no Brasil colonial, sobretudo em relação ao “quinto” do ouro, a importância de Tiradentes na tentativa de combate nesse processo. A garota ainda estava paralisada pelo vocábulo contraponto. ”Que droga quer dizer isso? Essa professora deve estar de zoeira...”
A semana passou mais rápido do que poderia supor. “Amanhã tenho que entregar aquele troço...”, refletiu, separando duas folhas de papel almaço, com e sem pauta. “Se ao menos ela aceitasse no pendrive... Disse que tem que ser com a letra da gente, para ter certeza de que fizemos alguma coisa.”
Entre muxoxos e resmungos, a adolescente rumou-se para a cozinha, um lugar
 espaçoso onde tinha uma imensa mesa, que a mãe deixava absurdamente limpa, pronta para se realizar feitos, fossem quais fossem.
Inclusive, fora a mãe que a alertara sobre o trabalho. Era do tipo de mãe ocupadíssima, mas que separava uma hora para averiguar a vida estudantil dos filhos adolescentes, um casal, que estudava no mesmo colégio em turmas diferentes.
“Bem que a mamis me falou... Que eu ia deixar para a última hora e ia fazer tudo
nas coxas. Está tarde, caramba, tarde...”
Tinha olhado as horas. Todos já deitados, com sonos a serem cumpridos para a energia do dia seguinte. E a garota ali, às 23 horas e quarenta e dois minutos, pensando ainda no que iria escrever.
Ela pegava às 7h30min na escola...
“Essas pragas de político! Só servem para isso... A gente é obrigada a fazer esses trabalhos ridículos, valendo nota para o primeiro bimestre... Se não fizer, fica com zero.
Eu nunca vi tanto ladrão! Ontem mesmo, fiquei sabendo de um rombo de mais de cem milhões de reais! Se não fosse isso, o jornal estava dizendo, nosso Estado não teria tantos problemas para pagar os funcionários...
E é violência, rebelião em presídios, gente morrendo nas filas de espera nos hospitais, linhas de ônibus que são desativadas, nomes de linhas que são trocados  e o preço da passagem que aumenta e aumenta...
Essas pragas de político! Cambada de cínicos, miseráveis! Quando chega época de eleição, ficam beijando crianças e entregando santinho pra gente, com sorriso de dente bem tratado, usando o dinheiro do povo. Eu mesma já cansei de ver gente banguela, que fica puxando saco de candidato... E tem gente que se vende por causa de dentadura! Ah, fala sério...
E quando chove? Não tem uma política pública que resolva, de verdade, os casos de enchente em regiões que correm o risco de deslizamento de barreiras.
Todo dia, é botar o pé fora de casa, e ver um monte de mendigo. E nem são mendigos mendigos! Muitas delas, são pessoas que perderam o emprego, e estão se aboletando por aí, porque não conseguiram pagar o aluguel. Não têm grana nem pra comer...
Não temos segurança! ‘Tá brabo pra gente sair na rua, pra ir à praia... Não tem policiamento suficiente! Quando tem, os policiais não podem fazer muito, porque alguns são menores infratores. Ninguém consegue resolver esses problemas... Estamos às moscas, entregues às baratas!...
Essas pragas, pragas, pragas de político...”
A garota estava investindo o seu tempo para praguejar mentalmente.
Quando marcava perto de meia-noite, a energia elétrica se foi. Faltou luz, sem que ela sequer tivesse escrito uma linha.
Saiu tropeçando em busca de velas, que sabia que a mãe guardava na área de serviço, num armário de madeira.
Acendeu logo várias, em torno de seis, para que desse um mínimo de iluminação naquela cozinha que começava a odiar.


Com a luminosidade precária, começou a empurrar a escrita caneta abaixo. “Ela quer que seja à caneta azul, para não parecer xerox...”
Sem ter ideia de como iniciaria o tal trabalho, apelou para a cópia descarada de uma matéria de um site que, por pura sorte, havia salvo no notebook, que continuava funcionando a despeito da falta de energia elétrica. O referido site era famoso por dar opinião e informação sobre aspectos políticos, do Brasil e do mundo. A garota fez uma colcha de retalho tão grande de palavras, que ficava imaginando se a professora seria enganada que ela tinha feito realmente o tal contraponto.
Arrumou um artigo biográfico sobre Tiradentes num livro antigo, dos tempos de escola da mãe, e onde ela viu “quinto” do ouro, saiu transcrevendo, sem qualquer complexo de culpa.
“Isso deve enrolar a professora!...”, refletiu com um pequeno sorriso.
Caprichou na escrita. Deixou-a redonda e bem delineada, típica de aluna exemplar, o que ela não era bem o caso. Fez isso com tanto esmero, porque a educadora era um “carrasco” com quem lhe exibisse letra garranchada. Dizia que aquilo estava “sujo”, e a nota ficava seriamente comprometida.
No exato momento que finalizou o seu “trabalho” – que era perto de uma hora da madrugada –, um barulho parecia ter abalado a casa toda, um som retumbante vindo da área.
“Meu Deus”, – com o coração disparado – será que é algum ladrão? Ah, não! Políticos não invadem nossas casas à noite...” – permitiu-se pilheriar com o seu medo intenso.
Não foi conferir o motivo do estranho som. Saiu guardando o material e apagando as velas.
Foi dormir sem ter a noção do que poderia ter causado o barulho tão estrondoso.
Embaixo do edredom, jurou nunca mais realizar as tarefas escolares no último dia de entrega. Achava, meio sonolenta, que era castigo divino por deixar as coisas para a última hora, que ela deveria ser mais organizada. Juramento esse que fora totalmente esquecido no outro dia, quando se arrumava para ir à escola.
Antes de sair de casa, no entanto, sua mãe, sem querer, havia descoberto o misterioso motivo do barulho na área de madrugada.
Não fora nada mais que a caixa de papelão cheia de sabão em pó que tinha caído porque, na busca pelas velas, a garota a arrastara e a deixara em falso na beirada de cima do armário. Quando chegou para pôr a roupa na máquina de lavar, a encontrara derramada com um “tapete” azul formado no chão.
A garota explicou o ocorrido; achou mais conveniente do que a mãe pensar que algum animal havia entrado ali. Ela nutria pavor por bichos.
Depois de ouvir a reclamação de sua mãe – que a alertara mais uma vez para não deixar tarefas a serem realizadas em cima da hora –, a adolescente dos quatorze anos de não-tô-nem-aí-para-o-que-os-mais-velhos-pensam, se apegou mais à brincadeira sobre os políticos que fizera, confirmando que eles “não entram mesmo em nossas casas à noite para roubar!...”
A professora recolheu todos os trabalhos, e tirou para corrigir ali mesmo, na frente dos alunos.
Um tanto pensativa e temerosa, a menina ficou olhando para a mestra de esguelha, ela que sentava na última fileira de cadeiras.


Era normal, para aquela professora, permitir aos alunos, algo parecido com “recreio” enquanto corrigia, já que eles podiam conversar à vontade. Só não podia ser em tom alto.
No final, a educadora foi chamando um a um a sua mesa, e explicando a nota que recebeu. Na vez da garota, disse:
   Até que seu trabalho me surpreendeu! Você não gosta muito das minhas aulas, que eu sei, não presta muito a atenção... Mas ficou bem interessante como você conduziu e dispôs seu ponto de vista! Um contraponto que eu queria mesmo encontrar, e a maioria não soube fazer!...
“Isso é que é contraponto, então...”, pensou a garota, divertida.
  A única coisa que eu não gostei – prosseguiu – é da letra. Você poderia ter caprichado! Não está muito satisfatória, por isso te apliquei a nota 8. Se não fosse por isso, seria 10, com certeza!
A garota ficou meio chateada pela reclamação da professora, sobre a melhor letra que ela conseguia fazer, para logo dar lugar a uma satisfação: “Consegui embromar a professora! Ela nem percebeu que eu copiei tudo!”
Já sentada em sua cadeira, a adolescente levantou a mão, pedindo a palavra:
  Professora!
  Sim, pode falar!
  É que... sabe? Eu acabei de descobrir uma coisa bem legal...
  E o que foi? – perguntou a mestra, olhando com mais firmeza para aquela sua recente revelação de boa aluna de História.
  Bem, eu descobri que adoro política!...



Se você quiser apreciar antecipadamente os outros contos da antologia, basta clicar neste link no site Mary Difatto >>>> http://www.marydifatto.com.br/2019/01/imprevistos-de-uma-viagem-cotidiana.html


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