PARA QUEM AMA GATOS

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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana (conto)





Conto de hoje: Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana
Da antologia homônima IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA, de Mary Difatto.
Última publicação dessa antologia.
Bons "imprevistos de viagem"!



IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA



O trajeto era o mesmo. O horário e a linha de ônibus também, de todos os dias úteis da semana.
Porém, algo ali soava incomum àquela panfletista de uma instituição voltada para o meio ambiente.
Sônia levava de uma, a uma hora e meia, para chegar ao Centro da cidade.
Estando lá, recebia instruções para a entrega das filipetas, qual o bairro, rua, até que horas ficaria, qual equipe iria junto, quais pessoas naquele lugar seriam ideais a serem abordadas. Tudo para conquistar ao máximo a atenção do público-alvo. Pertencia a uma empresa de renome, que queria “limpar” a má fama de contraventora, apoiando causas nobres.
A singularidade do dia de Sônia começou, ao sentar-se no quinto banco à direita, junto à janela (por estar na maioria das vezes cheio, ela tinha que se contentar quase sempre com o assento do corredor).
Era bom sentir o ventinho vindo lá de fora! (Infelizmente, seu ônibus pertencia ao infeliz clube dos “sem ar-condicionado”, portanto, sentar-se à janela era um luxo!...)
Tirou o seu fone de ouvido, daqueles que cobrem toda a orelha, evitando problemas auditivos que com o tempo pode ser provocado pelos decibéis a mais  que os fones comuns costumam ocasionar.
Comprou um de cor única, totalmente cinza, para não chamar o olhar cobiçoso de ninguém. Tomar a atenção, só na panfletagem, onde Sônia mostrava-se intensamente despachada.
Seu celular era simples, da mesma cor do fone, sem aplicativos, sem alta tecnologia; servia só para falar e ouvir rádio FM. Não havia uma estação a qual ela fosse fiel. Porque nenhuma tocava o que ela gostaria de ouvir, isto é, “tudo”. Dentro da música, ela era verdadeiramente eclética. Do pagode à música clássica, os ouvidos da panfletista aceitavam com gosto. Quando enjoava de um estilo musical, passava para outra estação, e tomava essa atitude invariavelmente, na já acostumada rotina de ida e volta do trabalho.
Estava ligada a um som vibrante do rádio, que naquela área onde o ônibus estava, dava um pequeno chiado pela falta de frequência completa, quando um rapaz se sentou ao seu lado, pedindo licença antes.
Uns 10 minutos de viagem apenas havia transcorrido para Sônia, e ela contava com a distração que vinha do seu rádio, tão somente isso.
No entanto, o tal rapaz demonstrava uma tristeza tão profunda, que a moça passou a prestar a atenção em seus atos, para captar-lhe os reais sentimentos.
Logo, ele próprio puxou conversa:

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Gêmeas de Corpo e Alma


Conto de hoje: Gêmeas de Corpo e Alma.
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA,  de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!




GÊMEAS DE CORPO E ALMA




Elas eram gêmeas. Duas mulheres feitas, unidas pelo nascimento. Partilhavam de tudo juntas. Gêmeas de corpo e alma.
Por uma grande força do destino, apesar de gêmeas bivitelinas, ou seja, formadas com óvulos e placentas diferentes, eram muito parecidas.
Karen e Karina, os seus nomes.
Tinham a irmã mais velha, que elas pouco se comunicavam. Irmãos gêmeos são mais irmãos que os outros, de partos individuais...
A família delas era essencialmente feminina – as gêmeas, a irmã mais velha, a mãe e a avó –, e elas costumavam ser paparicadas, sempre chamadas de “meninas”, mesmo estando formadas em arquitetura, adultas o suficiente para saírem de casa, logo quando quisessem.
Quem optou pela arquitetura foi Karina, mas Karen sempre fazia o que a outra escolhia; lembrando bem o “maria-vai-com-as-outras”, que tanto a sabedoria popular repete.
Ambas trabalhavam na mesma empresa; ambas namoravam gerentes de banco. Eram tão unidas, que uma vez Karina não quis ir a um evento. Karen, que já tinha marcado com o namorado com antecedência, preferiu não ir também,alegando problemas de saúde. As gêmeas não se largavam nunca...
Pâmela, a irmã das duas, não confessava, mas a magoava bastante a atitude das caçulas de a preterirem sob qualquer aspecto, como se ela fosse apenas “alguém da família”. Uma diferença mínima de três anos, não a fazia com tal distância etária assim, para que as gêmeas não pudessem incluí-la.
O erro talvez tivesse sido da mãe, que conversava coisas sérias ou banalidades em separado. Primeiro, chamava a mais velha; depois as caçulas. Formava um “bloco separatista”, feito um complô onde o “campo inimigo” não poderia saber os próximos atos.
Mas Pâmela tinha orgulho delas. Considerava as “meninas” muito inteligentes e descoladas, que ela poderia dizer para os amigos: “Foram as gêmeas que fizeram!”, quando viam os muitos croquis que levava para o trabalho.
Ela mesma não tinha formação acadêmica. Mal terminara o Ensino Médio, e fora chamada para ser atendente de guichê na Rodoviária Novo Rio. Falava o inglês intermediário e o espanhol fluentemente, ambos idiomas aprendidos na correria do cotidiano atendendo passageiros diversos. Também com um esforço maior para o aperfeiçoamento.
Invariavelmente, Karen e Karina criticavam o jeito de se vestir de Pâmela, sugerindo que ela fosse “jeca”.
Numa das poucas festas que as moças convidaram a mana mais velha, assemelhava-se a um acontecimento nababesco, tal era o tato das gêmeas com a vestimenta de Pâmela:

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Inveja Inexplicável


Conto de hoje: Inveja Inexplicável.
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!





INVEJA INEXPLICÁVEL



O vizinho de duas casas após a dele passou, com passos certeiros, fazendo um sujeito de nome Ademar prestar bem a atenção em seus gestos.
Leandro era um cara de porte atlético, não alto, mas de estatura mediana convincente, semi-calvo, andar posudo, sorriso franco, olhos vigilantes, vivido e bem quisto, no auge de seus quarenta e poucos anos. Não havia quem não gostasse dele, considerado um exemplo do que é ser um bom vizinho.
Trabalhara como paraquedista do Exército, chegando a oficial, e nos dois últimos anos, infelizmente, por deslocamento da clavícula esquerda. Num dos raros saltos mal dados, fora afastado para tratamento, logo em seguida, sendo aposentado, apesar de sua imploração para que o mantivessem na infantaria. Sua aposentadoria acontecera, não tendo ele motivo algum para reclamar: o dinheiro que recebia mensalmente era bem adequado ao seu mérito.
Estava separado da esposa há dois anos, não tendo filhos. Com a atual namorada, uma moça doze anos mais nova que ele, pretendia se casar novamente e ter, pelo menos, um bebezinho para alegrar a casa. Leandro, por aquele tempo, não morava com a namorada, e tinha a companhia apenas de um casal de cães e um gato, todos castrados. A moça cansava de rir porque ele conversava com os animais como se fossem crianças.
Talvez por ter sido do Exército, ele era bastante disciplinado. Acordava muito cedo, comia alimentos sem gordura, seguia uma dieta balanceada. Fazia exercício todos os dias na praça em seu próprio bairro, usando os dez aparelhos não quebrados do espaço (dois deles, os vândalos trataram de deteriorar). Corria o campo todo, ingerindo muita bebida isotônica. Sua geladeira andava repleta delas, das melhores marcas.
Um dos seus “luxos”, era ensinar truques aos seus animais de estimação.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A Doçura da Cana-de-Açúcar


Conto de hoje: A Doçura da Cana-de-Açúcar
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA
de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!



A DOÇURA DA CANA-DE-AÇÚCAR



    Seu Joaquim era um dos daqueles senhores de cabeça branca, aposentado e de bem com a vida, do tipo proseador, que se sentava na frente do portão com sua cadeira vermelha, que ganhara de uma distribuidora de bebidas. Nem retirara o logotipo: trazia um orgulho de ter conquistado a generosidade de uma grande empresa.
   Aquele senhor comprara seis terrenos, um ao lado do outro, num bairro simples da Baixada Fluminense, há mais ou menos 40 anos. Resolveu murá-los como se fossem um, e construiu uma imensa casa de laje, com cobertura de telha de barro para o terraço aludindo, em parte, aos tempos feudais. Era o encanto do lugar.
Admitia que tinha sido muita sorte conseguir aqueles terrenos por um preço módico. Mais cinco anos, não compraria nem um: o bairro tinha chamado a atenção pela descoberta de uma pequena e linda cachoeira escondida atrás de um morro inóspito. Desbravado o morro, surgiu a cachoeira. Logo o bairro se tornara parte de uma espécie de mapa turístico da cidade. Logo todos os terrenos tomaram valores exorbitantes, que seriam difíceis para a compra, sobretudo para um trabalhador braçal dos tempos do “mato”, onde o que se via eram apenas plantações e ele, constituinte de um grupo grande de roçadores contratados (ou agregados, como sugeriam alguns moradores), nem nutriria tamanha pretensão.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O Mistério do Sorvete



Conto de hoje: O Mistério do Sorvete.
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA,  de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!




O MISTÉRIO DO SORVETE



  Quem detonou com o meu sorvete?
Era a pergunta lançada aos gritos por Benito, ao voltar do trabalho por volta das 20 horas. Teria chegado mais cedo, se não fosse o trânsito conturbado.
Direcionou-se, de imediato para o congelador, onde guardava o sorvete de creme de avelã, seu favorito. Não o encontrando, ficou entre a decepção e a fúria. Até o pote levaram. Não deixaram rastro.
Houve uma época, em que nada parava na geladeira daquela família. Os moradores se assemelhavam a nuvem de gafanhotos que escolhia uma plantação: devoravam tudo o que viam pela frente, que aludisse levemente a algo comestível.
Aquele sorvete em especial, Benito separara para ter um pouco de individualidade, ele que era o cara imiscuído nos gostos da maioria. Tudo que comprava era para todos; acabava sendo preterido na votação geral na escolha.
Mas ele tinha consciência de que família grande costuma ser assim mesmo... No caso dele, era gigante!
Dentro de casa, viviam: ele próprio, a mulher, os cinco filhos, a mãe dele e a irmã solteira.
No mesmo quintal, uma espécie de “vila familiar”. Havia mais duas casas, com dois irmãos casados ocupando cada qual, com suas respectivas esposas e filhos.
Todos se sentiam no direito de “invadir” o lar alheio – sobretudo o de Benito – e apanhar o que lhes interessasse. O alvo principal, em via de regra, era a geladeira.
Mais por causa da mulher de Benito, que tinha dotes culinários, e tirava certos dias para preparar iguarias que enchiam de água, as mais variadas bocas.
Com o tempo, tivesse ela cozinhado ou não, a geladeira parecia território livre: tudo que ali estivesse, era consumido.
De tanto ver o que cozinhava não parar na panela, e olhar a geladeira vendo-a vazia, a despeito de ter feito compras recentemente, sua mulher fizera um trato com os moradores da “vila”. Passara a vigorar uma “lei” que, somente nos dias  marcados, trazendo eles ingredientes suficientes, todo mundo poderia comer à vontade; repetir até. Nos dias “comuns”, ninguém poderia tocar em nada naquela casa. Absolutamente nada.
Isso foi o que deixou Benito mais louco de raiva:
  Trato é trato, caramba! A maioria aqui é gente adulta, e sabe que não pode mexer quando não for o dia... Ou será que foram vocês, crianças? – falou, apontando para os três menores – Se foi um de vocês, vai me contar agora!
Duas meninas e um menino em idade escolar, se entreolharam amedrontados, tão temerosos, que quando a maiorzinha falou, sua voz era o próprio embargo:
   Fui... eu... não, pai! Nem os outros! A gente... a gente tava brincando no quarto com o videogame. A gente nem veio para a cozinha... A mamãe... a mamãe que levou nosso lanche!... Não foi, mãe?
A mulher de Benito confirmou:
  É, sim. Elas não foram, com certeza! O pai de família estava revoltado:
  E os maiores, onde estão?
  Estão no curso de inglês; você não sabe disso?
Benito lembrou que os filhos adolescentes tinham aulas noturnas, às terças e sextas, num ótimo curso de idiomas no Centro da cidade. Saíam da escola e iam diretamente para lá.
  Então, foi quem?
  Sei lá... – a esposa demonstrava confusão – Com tanta gente nessa família!...
   Tudo bem! Mas geral aqui é adulto, né? Eu não acredito! – me recuso a acreditar – que aquela pouca-vergonha, de devorarem nossa comida toda, tenha voltado. Depois de tudo que conversamos...
Seus filhos, vendo que eles tinham sido devidamente absolvidos, voltaram ao quarto, com o vozerio turbulento característico infantil.
  Eu não queria acusar, mas estou achando que foi um dos meus sobrinhos... – refletiu meio acabrunhado – Vou lá perguntar!
Perto das 21h, alguns se preparando para assistir novela, e Benito fazendo interrogatório com cada um dos sete sobrinhos, entre crianças e adolescentes.
      Desta vez resolveu chamar um por um, no canto, sem interferência de adultos.
O casal de gêmeos de dezesseis anos estava com bacia na mão se entupindo de batata frita na frente da TV. Queriam assistir a uma cena lá qualquer numa  novela cheia de suspense. Parecia que a mocinha iria finalmente botar em pratos limpos o que a vilã andou aprontando com ela na ficção inteira. Coincidentemente, era o que Benito estava ali para realizar: lavar as taças de sorvete supostamente sujas por um deles.
A contragosto, o rapaz viera na cozinha, onde o moço do sorvete perguntou com muita clareza:
  Foi você que pegou meu sorvete?
  Que sorvete?
  Meu sorvete, oras! Lá do meu congelador!...
  Pô, tio! O senhor sabe que eu não gosto de sorvete...
  Mas ‘tá calor, né? Sempre cai bem...
   O senhor já me viu várias vezes recusando, mesmo quando alguém me oferece! Não gosto mesmo, o senhor sabe disso...
Benito teve que admitir que o garoto falava a verdade. Era do tipo que preferia comer brócolis – que também não gostava – do que ingerir o alimento gelado. Dizia que tinha nojo, que lembrava alguma coisa gosmenta de um filme que assistiu.
A irmã gêmea fora chamada. Não queria vir de jeito nenhum. A novela tinha começado:
  Qual é, tio? O que que ‘tá pegando?
  Eu é que pergunto: quem pegou meu sorvete?
   Eu que vou saber?! Nem tenho entrado na sua casa por esses dias... O senhor sabe muito bem que estou de castigo. Minha mãe só me deixa vir aqui na sala para ver a novela. Depois, tenho que ir para o quarto, igual a uma condenada...
Na semana passada, a sobrinha fora puxada pela orelha pelo pai por ter falado palavrão para a avó, mãe de Benito e seus irmãos. Algo a ver com conselho que a garota não gostou e arrumou rima chula para “Não bode, vó...” Falta de respeito com os mais velhos era tratada com rigor pela família inteira.
  ‘Tá certo... – saiu da casa, inconformado.
O primogênito, irmão dos gêmeos, não poderia ser suspeito por estar de férias, do trabalho de meio período, em Angra dos Reis. Era um rapaz de seus dezessete, quase dezoito. Benito não desconfiaria dele, mesmo que ali estivesse: era diabético. Tomava insulina, tratava a doença com muito rigor. E ele, como tinha o bom hábito de realizar exercícios físicos, nem parecia ter a doença. Se descuidasse, era o mais saudável de todos daquela “vila”.
Só restava os quatro meninos do seu irmão do meio, considerados muito arteiros, mas não propriamente “ladrões” de comida. Até eram enjoados para se alimentar em qualquer horário. Mesmo doces, era uma batalha para sentirem vontade de degustar.
Não eram magros, mas longe de serem gordos. A conversa deles era com correr, soltar pipa, ficar na rua até tarde, tendo a mãe para fazer a vizinhança toda conhecer cada um de seus nomes e apelidos.
Entretanto, Benito sentiu-se forçado a conferir por questão de justiça.
Eram meninos com menos de doze; quando se juntavam os quatro, não saía coisa que prestasse. Bagunça na certa era o resultado.
Talvez até por molecagem, tenham tirado o sorvete do congelador para deixar o tio injuriado. Relembrando a infância, ele adorava deixar a mãe doida de raiva. Um prazer inestimável ver adultos perdendo o controle.
O sobrinho de cinco foi o primeiro a “depor”:
  Não fui eu, não, tio! – com olhar de suspeito sem ser: – Eu não alcanço, é muito alto.
Benito teve que rir por dentro. O garotinho, sem querer, confirmou a máxima popular que diz que “Vergonha não é roubar. Vergonha é roubar e não  poder levar...” Ele não podia nem roubar...
  Tudo bem. Mas sabe quem foi?
Desconfiado, o sobrinho balançou a cabeça negativamente.
  Legal. Pede para a sua mãe chamar os outros aqui!
Imediatamente, apareceu o segundo. Tinha nove anos. Ninguém dava mais de sete, por não ser muito desenvolvido, apesar de ter uma força descomunal. Com cara de poucos amigos viera; estava vencendo na queimada de sua rua contra a “equipe” da outra. Quando voltasse ao jogo, poderia ser tarde demais. Não confiava na habilidade de seus parceiros de “time”. O calor intenso permitia a esticada da brincadeira até mais tarde.
  Minha mãe mandou me chamar... O que aconteceu?
  A pergunta é simples: foi você quem tomou o sorvete lá da minha geladeira? Revoltado, o garoto só respondeu:
  Claro que não!
  Por que “claro que não”? Você estava aqui à tarde, não é? Poderia ter entrado e apanhado sem ninguém ver...
   Eu cheguei da escola e nem almocei, se o senhor quer saber... Joguei a mochila na cama e me mandei direto pra rua. Comi só a merenda mais ou menos ao meio-dia. Minha mãe pagou geral em cima de mim, pensando que eu não tivesse comido nada...
  Então você ficou o tempo todo na rua desde que voltou da escola?
– É...
  Ok. Volta lá pra sua brincadeira!
Bem próximo, vinha o mais arteiro dos quatro, com os seus sete anos. No entanto, o mais sincero. Era só dar uma “dura”, que saía entregando.
  E aí? Tudo beleza?
  Tudo...
  Você sabe quem mexeu no sorvete do tio?
  Eu não fui!...
  Olha, não pode mentir... Você conhece a sua mãe! Se ela descobrir que está mentindo, te coloca no quarto escuro sem poder sair...
A cunhada era rigorosa, mas jamais faria isso. No entanto, dava broncas bem firmes nos garotos. Eles a respeitavam. Benito só quis amedrontá-lo para obter a informação.
  Eu não fui, não, tio... Hoje cheguei passando mal. Vomitei no recreio depois que fui brincar no parquinho do colégio. Não comi nada até agora... Pergunta a ela só!...
Daquela vez que você vomitou foi por causa que ficou rodando no parquinho depois de comer?
  Foi...
  Sua mãe sabe disso?
  Não... Mas não conta pra ela... Por favor, tio!
  Não conto, pode deixar! Mas para com esse negócio, rapaz! Isso não faz bem pra ninguém... – olhando firme para o garoto: – Se souber quem pegou o meu sorvete, você fala, então, ‘tá? Trato nosso!
Um tanto timidamente o menino apertou a mão do tio, e se afastou. Acabou que Benito atirou no que viu, e acertou no que não viu. Agora tinha consciência do problema do menino vomitando da escola. Nada de comida estragada: era só mais uma das muitas artes do sobrinho.
O quarto e último que apareceu, era um dos seus sobrinhos mais descolados, com onze anos, de cabelo com reflexo de louro, e brinco de pequena argola na orelha esquerda. “Menino bonito”, todo mundo admitia; inteligente também. Da turminha, era o mais obediente, embora agitado.
Seu problema maior era ser bem sonso. Difícil arrancar-lhe confissões. Chegou na varanda, com a maior tranquilidade:
  Fala daí, tio!
  Você pegou o meu sorvete? – disparou Benito, sem perder tempo.
  Não... – respondeu o menino, igualmente veloz na fala.
  Caramba! Colabora, rapaz! Alguém pegou o meu sorvete, e estou começando a achar que vocês estão escondendo alguma coisa...
  Fala sério, tio! A gente nem tem entrado na sua casa...
  Isso não quer dizer nada! Vocês não têm entrado, mas escolheram hoje para dar uma aparecida por lá. Vocês não são proibidos...
  Só que eu, esse tempo todo, estava fazendo dever de casa. Agora à noite é que eu fiquei de papo com a galera ali na rua. Até joguei um pouco de queimada também...
O mais descolado, o mais bonito, o mais sonso e um dos mais bagunceiros dos sobrinhos era igualmente o mais inteligente. E sua inteligência vinha muito de sua autodisciplina, de deixar de lado qualquer diversão para se dedicar aos estudos. Benito sentiu que ele também não era o autor do “crime”.
  Pelo jeito, vou ficar mesmo sem saber o paradeiro do meu sorvete... Pode fazer o que você quiser. Está liberado!
Sem muita ênfase, o garoto direcionou-se para o portão, dando indícios de que era iria voltar ao que fazia antes, ou seja, uma traquinagem qualquer.
Benito não ousava imaginar que algum dos adultos pudesse ser tão infantil assim, de passar a mão em doce alheio após o trato tão bem feito.
Ficaria sem saber, mas não perguntaria a nenhum deles. Seria, no mínimo, indelicado.
Sentou-se no sofá de sua sala, consciente que o capítulo da novela faltava pouco para terminar. A mocinha tinha desmascarado mesmo a vilã perigosíssima.
“Só eu que não descubro quem pegou um simples sorvete...”, pensou Benito, um tanto chateado.
      Como se fosse combinado, foi a vinheta de término do capítulo ressoar sala afora, para a mãe e sua irmã retornarem com várias bolsas cheias.
Toda vez que visitavam a tia da Tijuca, traziam novidades em forma de cortinas: de sala, de banheiro e de pia. Eram muitas, de diversas cores, tamanhos e texturas.
  Vocês não têm mais jeito! Saem comprando tudo daquela loja... Assim a tia vai acabar ficando rica! – comentou com simplicidade Benito.
  Ah, nem pensamos duas vezes, né, mãe? Tem cada coisa linda! Quer ver?
  Agora, não...
Lá do quarto de casal, a esposa de Benito gritou, ela que costumava acompanhar os noticiários dia e noite na TV paga:
  Não adianta, não! Benito está de cara feia desde que voltou do trabalho! A mãe logo ficou preocupada:
  Ué, meu filho? Alguma coisa grave aconteceu? Sem titubear, declarou de imediato:
  Roubaram meu sorvete, mãe!
Logo depois de um leve suspiro e um meneio de cabeça, a mãe confirmou perguntando, com certo desdém:
  Então, era isso?
  E a senhora acha pouco? Em nossa família tem ladrão de comida, e fica tudo por isso mesmo? E pior que foi adulto! Adulto, caramba, ADULTO!
Rindo, a mãe tratou de falar:
  Fui eu, seu bobinho!
  A senhora????
A irmã ficou rindo, de pé, imaginando o que estava se passando na mente de Benito. Nem na mãe poderia confiar mais!
   Euzinha! – sinalizando para a filha: – Vá lá buscar aquele negócio que eu guardei no armário! Você sabe, a prova do “crime”...
Já de volta, a irmã de Benito ainda ria muito. Ela tinha o que se chama de “riso frouxo”.
   Você vê se para também! – proferiu Benito, visivelmente injuriado – Parece até uma hiena...
A moça nem ligou. Agora o riso virou gargalhada.
  ‘Tá, mãe, a caixa de sorvete está aqui. Pra que eu quero uma caixa vazia? Eu acredito no que disse, que foi a senhora quem pegou. A única pergunta é: por quê?
   Se você não fosse tão guloso, perceberia logo o motivo. – a mãe estava contrariada – Veja só a data do lado!
Benito olhou e não achou nada demais:
  Ah, mãe, é só a data de fabricação...
  ... que traz junto a data de validade! – completou a mãe.
Teatralmente a mãe se levantou, tomou nas mãos a caixa e leu a data que continha. O prazo da validade do produto já tinha explodido há dois meses!
  Caraca! Isso tudo?
  Isso tudo! – repetiu ela. – Hoje que eu vi pela manhã. Joguei logo aquela porcaria toda fora! Vai que você passa mal?
  Mas   por  que  a  senhora  não  deixou  um  bilhete, não  ligou  pra mim   me avisando?
  Esqueci, é verdade. Foi um erro meu... Não dá pra pensar em tudo, né?
Benito estava inconformado. Fizera um imenso “barulho” por nada. Não passava de preocupação de uma mãe cuidadosa, zelando pela saúde de seu filho.
  Obrigado, obrigado mesmo! – já refeito – Se a senhora não faz isso, iria ficar ingerindo sorvete passado até acabar. Um pote tão cheio ainda...
  Agora é tratar de processar esse supermercado! Fica vendendo comida podre para os clientes!...
   Só que eu não guardei a notinha. – lamentou Benito – Bobeira minha!
Comprei anteontem, podia ter deixado na carteira!...
  Pena... Mas ao menos você lembra o nome do supermercado?
  Não... Há muitos por onde eu passo. Qualquer um pra mim serve!
  Bom, está tudo resolvido! Chega de estresse! – disse a mãe.
Indo guardar as lindas cortinas que comprara na loja da Tijuca, a mãe virou-se para aconselhar:
  Da próxima vez, observe bem a embalagem, para verificar a data direitinho. E aproveita, meu filho, e cuida mais de sua saúde! Você se empanturra demais de doces, salgados, gorduras... Tudo bem que seus irmãos também são uns esfomeados, atacavam a sua geladeira aqui que era um terror, mas eles fazem exercício todo dia, estão sempre testando a taxa de glicose com exame de sangue. Nós já temos casos de diabetes na família; seu pai era. Seu sobrinho, coitadinho, tem diabetes tipo 1, você sabe, já nasceu assim, e se cuida muito bem.
“Agora, você, só vive deitado, comendo carboidrato e comida com  gordura trans. Sorvete, então, parece que você nem toma, come! Para ir à padaria, vai de carro, – e a padaria é aqui na nossa rua! –, para pegar qualquer coisa, ao invés de se levantar, pede pras crianças trazerem. Sua vida é muito sedentária, meu filho! Vê se muda os seus hábitos, e logo!”
Reflexivo com o que a mãe dissera, Benito afirmou:
  Pode deixar, mãe, que a partir de hoje vou levar mais a sério a minha saúde! A senhora tem razão! Eu ando muito descuidado e preguiçoso... Isso vai mudar! Deixa comigo!
Continuou Benito comprando os seus alimentos favoritos, inclusive o “sorvete da discórdia”, o tal de creme de avelã.
Não começou os exercícios, e insistiu no erro de ir à padaria de carro.
Sentado ou deitado na sala vendo filme, eram os filhos que iam a qualquer parte para atender a um pedido dele. Principalmente cerveja ou petiscos.
Comia de tudo, muito, ainda mais nos dias marcados pela mulher para a comilança sem freios. Aqueles dias eram um pedaço de paraíso ao seu ver.
De todos os conselhos de sua mãe para ter uma vida saudável, só cumpriu  com um: ao pegar num pote de sorvete, sempre averiguava a data de validade...


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