
Gota à gota, um traçado de pingos e raios formou-se naquele quintal vespertino.
As folhas chamuscadas de luz e encharcadas de lágrimas celestes.
Vi o território de pés descuidados cheio da água límpida e brincalhona, voluptuosa, sem o decoro coerente à chuva de verão comum.
Fascinante aquela água traduzida em Sol, um canto harmônico sobre os frutos em formação!...
Ah, que delícia seu frescor arrancado do chão ainda acre do calor do dia!
Que liberdade de expressão em poucas palavras!
Um quê de ternura e parcimônia, ao mesmo tempo que esbanjava beleza e ardor!
Quem nunca se emocionou ao descortinar sua janela e avistar o encontro amoroso do Sol e a chuva, o casal risonho que molha os anseios e seca as amarguras?
Os pássaros, quando se recolhem, não imaginam essa proeza que o céu tinha na sua cartola natural para fazer a mágica.
Os bem-te-vis ficam tinindo de frustração porque a Mãe Natureza roubou-lhes o legado do dia, de serem os mais falados e argumentados, com seus debochados cumprimentos: "Aham, bem te vi!"...
Já era!...
Sol e chuva pegaram emprestadas as pipas dos fios dos postes e fizeram um balanço cordial com os fluxos tilintantes do começo do despertar da luz elétrica.
Umas cigarras metidas tentaram entrar na roda mas, preocupadas com a própria sobrevivência, seu canto de acasalamento teve que se resguardar para outra ocasião...
Nunca tinha ouvido tantas crianças gritando de frêmito por uma chuva!
"Ah, mãe, 'tá chovendo, 'tá chovendo!...", alardeavam pelo megafone pueril.
Um corre para guardar as roupas da corda.
Um corre para botar os chinelos na sala.
Um corre para ver se o cachorro tinha entrado na casa.
Um corre para a fresta da janela...
E um vozerio másculo, em bando, avisando o que todos já sabiam:
"Olha ela aí, rapá! Não é que ela veio mesmo?", entremeando as frases com uma risada gostosa, mais delirante que, ao invés de chuva, fossem suas namoradas chegando...
Porque ela não era uma chuva.
Era "Sol e chuva, casamento de viúva"!
A viúva que me perdoe, mas ela é apenas fosco objeto de rima, porque as estrelas que brilham de verdade são o Astro-Rei e sua namorada, a repentina Chuva, que mesmo às vezes fazendo seus estragos, tem no companheiro caloroso sua redenção de qualquer dor causada.
Que paradoxo biruta, de vermos lógica em quente/frio se misturando!
A partir de hoje vou pingar sopa fervendo no sorvete!
"Kibom!", alguém vai gritar!...
Brincadeira imbecil porque existem casamentos que não funcionam...
Mas Sol e chuva é casamento que funciona, sim, porque, apesar de opostos, se casaram por amor!
Se ambos fossem gente, fico delirando e idealizando seu diálogo:
"Amor", diria a Chuva, "faz um chazinho pra mim! Estou com um frio danado..."
Ele, o Sol, romântico, amoroso e prestativo, diria:
" 'Tá bem, amor!"
Só que ele tem suas cálidas fantasias, e pediria à ela, após vê-la aquecida em seus braços:
"Querida, dá pra partilharmos agora uma cervejinha?", com um beijo quente estalando na boca sedenta da amada.
E ela, mais acalorada pelos braços vigorosamente masculinos do marido:
"Hum, até que não seria má ideia..."
Assim viveriam felizes para sempre, qual nos contos-de-fada, sabendo respeitar as diferenças de gosto que cada um tem.
Não sei por que mas sempre tenho um sentimento de explosiva diversão quando os dois se encontram!
Parece que ambos querem nos ver tangidos no bom-senso, algo de espetacular sutileza ecoando na razão: "Eis a contradição que pode ser normal!", o cérebro em desalinho, responde.
Toda vez, toda vez, eu páro os meus momentos de paz para devanear Sol e chuva!
A cançãozinha ribombando enfadonhamente alegre na cachola: 'Sol e chuva, casamento de viúva; chuva e Sol, casamento de espanhol!"
Uma reverberação que se forma na gotícula do flamboyant é para alertar que água é incolor, mas traz todas as cores!
Revelação para os distraídos, que pensam que a vida é absoluta, quando é relativa, qual um grão de arroz ser apenas resto de comida no prato humano e banquete de dias para as formiguinhas que correm desarvoradas sobre a mesa onde 'cataram' o mesmo alimento branco...
Às vezes acho que essa molecagem que o imprevisto nos prega é para sabermos da indigência com que tratamos os nossos afazeres, nosso viver, nosso estar aqui, qual cavalos com sua 'viseira', olhando para um lado só!...
Eu poderia ter saído mais cedo para comprar umas coisinhas, mas deixei pra depois!
-Não vai chover hoje! Com esse Sol!...
E ele, o Quinta Grandeza lá em cima, 'zoando', chamou a amada para curtirem com a minha cara!
- Aninha é muito mais alta que o namorado,- alguém pode dizer em algum lugar nesse Planeta - não vão formar um bom par...
E Aninha e o namorado se casam, tem filhos, e nunca se viu casal mais lindo e entendido entre si!
Osvaldo mora perto do trabalho, não precisa pegar transporte e se encontrava insatisfeito; esse trabalhador agora pega dois ônibus, tem que inteirar a passagem e o sorriso está estampado em cada canto da boca!
Venham contrastes, venham imprevistos, venham porque vocês também são amados e aceitos!...
Assim, gota à gota ligada, encerrou minha tarde chuvosa-solar.
A noite vinha, me entreguei ao cansaço do dia.
Fui tomar banho, e ler Seleções.
Numa outra oportunidade eles vêm, o Casal Maravilha, e mais uma vez gastarei meu tempo me 'preocupando' com seu vitorioso enlace.
Entregue às coisas do tempo, faço-me refém do ambiente que a natureza me transmite!
Sol e chuva, aquele do casamento de viúva, são a melhor resposta para meu desconserto, e se 'roubam' a minha paz, entorpecendo minhas ideias momentaneamente, trazem a fantasia e o sonho de uma vida inteira!
Eu me rendo!...
P.S.: Esse encontro Sol/Chuva ocorreu na bela tarde de 6 de janeiro de 2011.
(Imagem:
http://danielalabarce.blogspot.com)







