PARA QUEM AMA GATOS

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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Zigue-zague de uma magrela incansável


Fina e lépida, ela perfura tecidos em dimensões torturantes. Não pensa, não pára, não fala: persegue!
Sempre acho que a agulha é a saltitante das horas calmas, aquela que não nos deixa desistir... "Para frente é que se anda!", grita ela, com sua vozinha pequenina, e muito da mandona exigente!
Vai para lá, vai para cá, com sua fiel escudeira, tira onda em cima da aliada, mas não é nada sem ela; alguma agulha sobrevive sem linha?...
Se fosse uma mulher, seria daquelas organizadas que passam o uniforme dos filhos com afinco, faria muitas coisas ao mesmo tempo, focando a mente no almoço: magrela, mas boa de garfo! Bem... Ela trabalha a balde, queima as calorias nas correrias, botando todo mundo no chinelo!...
Minha lembrança mais antiga de uma, é ver meu pai manipulando o chuleio de ex-alfaiate. Camisas azuis ou shorts de quintal, eram frutos da inoxidável mediana, que não espetava o polegar por causa do dedal... Nunca aprendi a arte da costura, por mais que meu progenitor autoritário tentasse me ensinar!
Aliás, ser profissional da área "agulhas que espetam dedos",  em  anos longínquos,  deve ter sido trabalho de pompa! Mesmo aposentado, tanto meu pai quanto minha mãe falavam (e falam!) a designação com boca cheia: "Fui oficial de paletó!", algo que não dava tanto dinheiro assim, mas sustentou a família, juntamente com as deliciosas paçocas...
Agulha adora fazer arte! Mesmo eu que nunca tive essa intimidade toda com uma, me levou a consertar algumas roupas rasgadas, construindo desenhinhos com a dupla dinâmica!... Ficavam coloridos e bem bonitos! Lembro de uma saia jeans que inventei uma flor na frente e uma abelha mais distanciada. Ficou tão interessante, que houve quem achasse que eu tinha feito curso... Oras! O que uma agulha "inspirada" não apronta?!
Essa magrela agitada dá uma impressão de parada no carretel por obrigação! Fica quieta enquanto aguarda qualquer movimento das mãos. É algum de nós a segurarmos,  lá vem rodopio de sobe e desce que, basta uma mente mais poluída, para ela fazer imaginar coisas... (Eu sempre penso bobagens, não sei por que isso...)
A história diz que a primeira agulha surgiu há mais de 20 mil anos feita de osso,  e a  de ferro,  no século XVI, na Inglaterra, ou seja, tanto uma quanto a outra , é velha pra danar... No entanto, quem chama de idosa uma "criatura" tão formosa? Se tivesse raciocínio, seria daqueles seres banhados em formol, sempre conservada e linda; nunca vi agulha feia... Mesmo tortinha pelo uso ou um pouco enferrujada, sempre "manda ver". Termina uma costura inteira, tanto a novinha quanto a "coroa" espevitada!
Função que quase nunca ninguém recorda é de tirar espinhos que se esgueiram pela cútis das mãos ou pés. Já cansei de banhar a inoxidável das costuras em álcool,  para depois fazer o joguinho de espetamento, tentanto retirar algo pequenino e que dói quase quanto dor de dente! Ela vai escavando devagar em volta. Quando nos damos conta, o espinho saiu; a magrelinha volta para a sua almofada para dormir, um tanto resmungona, esperando que da próxima vez seja chamada para alguma função artística, que é a sua preferida!...
A grande verdade que ninguém sabe mais viver sem essa "moça". Uma roupa que se preze em meios sociais contemporâneos, tem que passar pelo seu crivo de aprovação! Já estilista por natureza, toda agulha faz aquele acabamento eficaz!... Existem as máquinas, existe o homem, existe o talento, mas só ela vai fundo nos detalhes! Poderíamos classificar essa notável como perfeccionista. Até para fazer trabalhos mal feitos, ela é minuciosa! Todo mundo percebe se uma delas passou por algum lugar. Sua marca é vista de longe!...
Básica invenção que sobrevive a milênios! Muitos afirmam que, junto à caixa de fósforo e à colher, NUNCA será substituída. Aperfeiçoada? Talvez... Porém, o mecanismo, a ideia, o "estalo de perfuração" esses, serão  sempre "monopólio" da fininha lépida...
Um abraço eu mando para ela, a "mulher das prendas"! Só não vou cair na asneira de abraçá-la muito apertado. É boazinha, só que é meio mal humorada!  Mesmo quando não lhe fazemos nenhum mal, se amarra em nos espetar,  avisando-nos que não devemos nos distrair quando estamos em serviço...

(Imagem:
Fonte desconhecida
Edição de imagem:
http://marymiranda-fatosdefato.blogspot.com.br)

8 comentários:

Nickmartins disse...

Oi, nunca pensei em uma agulha assim, mas confesso que achei super interessante. É verdade saber manusear a "magrela", não é pra qualquer um (digo até por mim), mas quem o faz bem feito, como seus pais, são artistas.

Rose Nakamura disse...

Mary
Que magia você fez nesse texto
Nunca imaginei que alguém conseguiria descrever tantas coisas de uma agulha.
Adorei o texto
beijos

Gisavasfi disse...

Ficou ótimo o teu texto, com tempero de lembranças!!!!
Só faltou você dizer que a agulha é uma "cabeça oca" tão amada e competente como todos os considerados "cabeças ocas" que vão em frente, sem nem perceber os olhares tortos e sem fé em sua capacidade. "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."
Ameiiiiii!!!!! beijos.

Unknown disse...

Oi Mary.... maga das palavras!!!!!!!
Incrível como você consegue dar vida ao texto... Fui lendo e imaginando a agulha trabalhando e percebendo o quanto esta danadinha faz falta quando pegamos uma blusa faltando um botão...hehehehe
Ela é daqueles utensílios que não podemos deixar de ter e que sempre nos salva de algumas saias justas!
Adorei... sua criatividade para escrever é igual ao trabalho da nossa querida agulha.... faz milagres!
Beijo enorme no coração

Mary Miranda disse...

Nick, amiga!!!!

Olha, sou péssima na arte de costurar, só que sempre admirei as agulhas! Elas são artistas de natureza! hehe
Só meu pai foi alfaiate! Minha mãe, como eu, também nunca foi lá boa nisso... Hoje em dia ele ainda lembra alguma coisa do ofício, o que é muito bom para ele e pra nós também; ótima tarapia!

Beijos!!!!
Obrigada por vir!!!!!!!

Mary:)

Mary Miranda disse...

Rose querida!

A agulha é uma "criaturinha" bem carismática, né? rs Sempre gosto de ver uma...
Obrigada por gostar do texto! Acho que de tanto ver uma, que até criei uma certa amizade... hehe

Beijos!!!!!
Mary:)

Mary Miranda disse...

Gi, amiga minha!

hehe Bem pensado no quesito "cabeça oca"! Se formos imaginar uma agulha como ser humano, ela não seria das mais inteligentes, mas de uma coragem impressionante! mesmo não sabendo fazer, ela seria do tipo que "mete as caras"! "Sai da minha frente porque estou chegando!", seria capaz de dizer...
Sim, teve gosto de lembrança porque quase até chegar à idade adulta, meu pai sempre estava costurando umas roupas para todos nós; ele é alfaiate por profissão.
Depois que aposentou, se dedica à plantação, outra de suas muitas atividades. De vez em quando leva umas "espetadas" de uma agulha porque sabemos que os dois se curtem de montão! hehe

Beijos, querida!!!!
Adorei que tenha vindo!!!!

Mary:)

Mary Miranda disse...

Valzinha, queridíssima Flor!

Já começo te agradecendo: MUITO OBRIGADA!
Sempre haverá um botão para se pregar e quem mais poderá nos salvar senão ela, a senhorita magrelinha danadinha chamada agulha? rsrs Interessante que só lhe damos a real importância - como quase tudo na vida - quando precisamos dela...
Adoro essa básica invenção, aliás, adoro as três, agulha, caixa de fósforo e colher. Creio que não saibamos viver sem nenhuma dessas "meninas"!... rs

Beijos, linda!!!!
Como sempre, seu comentário acrescentando e muito ao post!

Mary:)