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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Análise de "Sobre o Tempo" - Nenhum de Nós



A música Sobre o Tempo é do álbum Extraño, de 1990, composta por Thedy Correa, interpretada pela banda gaúcha Nenhum de Nós.
Nem precisamos quebrar a cabeça: o título define bem a letra. É sobre o tempo que se trata. Fala da ambiguidade e do quão é efêmero o tempo, das impressões ou mudanças que ele pode nos impor.
Na verdade, a música funciona como metáfora em nossas vivências: assim como o tempo tem seus opostos - o que é bom hoje, pode não ser amanhã - ,  a nossa vida em si também traz esses contrastes.
Pessoas muito apegadas aos
bens materiais, a coisas de modo geral, que coloca muito valor no que é passageiro, costumam se decepcionar com o decorrer do tempo.
Nós nos alegramos, entristecemos, nos alegramos de novo,  ganhamos, perdemos como, repito, é a própria vida e suas idiossincrasias. Falar de tempo é o mesmo que falar de vida.
Vejamos: "Os homens trocam as famílias/ As filhas, filhas  de suas filhas/ E tudo aquilo que não podem entender". Quando as pessoas se casam, acreditam que será para sempre, mas o tempo nos mostra, muitas vezes, outros lados daquela convivência. Por causa de diferenças irreconciliáveis, as pessoas acabam se separando, e os membros de uma família hoje, passam a não fazer mais parte daquela família amanhã, perdendo uma determinada "hierarquia" dentro do cenário familiar. Por exemplo:  muitas vezes não criamos nossas filhas, mas criamos as filhas delas como sendo filhas! E isso é louco demais para o nosso entendimento já que, se formos levar a ferro e fogo a nomenclatura adequada, as crianças filhas de nossas filhas seriam nossas netas.
"Os homens criam os seus filhos/ Verdadeiros ou adotivos/ Criam coisas que não deveriam conceber". Aqui o compositor claramente alude ao fato de que há pessoas que não têm preparo para serem pai ou mãe, mas mesmo assim têm filhos, só porque o consenso popular chegou à conclusão de que está no "tempo certo" (isso geralmente ocorre quando duas pessoas se casam). Na verdade, não deveriam se aventurar por situações que não poderiam  criar, porque ainda estão imaturas. O simples ato de casar, por exemplo, não significa "tempo certo" para ter-se filhos. O casal precisa construir um lar verdadeiro para receber a criança - biológica ou adotiva -, estarem cientes do papel que exercerão enquanto pais, enquanto seres humanos na  sociedade onde vivem.
No refrão, o esclarecimento do quanto o tempo pode ser implacável e objetivo. Pode curar, mostrar a verdade, baixar a arrogância do ser humano, quando se imagina o dono de tudo: "O tempo passa e nem tudo fica/ A obra inteira de uma vida/ O que se move e o que nunca vai se mover..." Às vezes investimos em certas coisas, obras que nos consomem a vida inteira, bens móveis ou imóveis, e tudo aquilo se acaba, de uma para outra, como num passe de mágica. O tempo nos mostra com sabedoria que não devemos ter apegos porque, até aquilo que garantimos, que jamais se moverá, pode cair por terra a qualquer momento.
Em: "O passado está escrito/ Nas colunas de um edifício/ Ou na geleira /Onde um mamute foi morrer". A sensação aqui é do quanto o tempo, com licença do trocadilho, não perde tempo: ele passa mesmo! Podendo ser comprovado nas colunas de um edifício através da data que geralmente é colocada numa parte bem visível aos moradores e visitantes, ou através das geleiras que o ancestral do elefante, o mamute, morreu, não importa: é tempo que se foi. A data exata de quando surgiram os primeiros mamutes, não sabemos. Mas como temos cérebros pensantes, temos consciência de que isso está na casa de séculos, milhares ou milhões de anos, que nos alertam da certeza e objetividade do tempo, algo abstrato e infinitamente real.
Mais uma vez nos lembramos que não devemos ser arrogantes, pois o tempo nos coloca em nosso lugar: "O tempo engana aqueles que pensam/ Que sabem demais que juram que pensam/ Existem também aqueles que juram/ Sem saber". Aqui percebemos que por mais que saibamos, nunca sabemos tudo, e aquele que se julga detentor de muita sabedoria, de que vai enganar os outros por ser o mais esperto, será humilhado pelo tempo. Talvez o compositor tenha mencionado implicitamente o pensamento de Abraham Lincoln, que diz: "Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo". Aqueles que juram sem ter certeza, que têm o objetivo de apenas passar por mais inteligentes, são como os sofistas, antes de surgir Sócrates, o pai da Filosofia: querem apenas se beneficiar com a  "supremacia de sapiência" para ganhar dinheiro e/ou status, não pensando em seu semelhante. A letra afirma que ninguém pode enrolar o tempo. Mais cedo ou mais tarde, todos vão pagar ou aprender, de uma maneira ou de outra.

Agora, a maravilhosa música Sobre o Tempo, com o Nenhum de Nós em vídeo!




(Imagem:
Fonte desconhecida
Edição de imagem:
https://www.facebook.com/MaryDifattoOficial)

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