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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Análise de "Codinome Beija-flor", com Cazuza



A música é Codinome Beija-flor, composta por Reinaldo Arias, Cazuza e Ezequiel Neves, do álbum Exagerado, de 1985.
Cazuza escreveu a letra quando estava deitado no Hospital São Lucas, e observava beija-flores na janela.
Qual é o foco principal da música? Um amor que ainda existe, mas que o relacionamento não terminou bem.
Poderíamos parar aqui a definição. Mas em se tratando do Poeta do Rock, ninguém menos que Cazuza, vale a pena destrinchar cada verso deste lirismo, contado e cantado com outras palavras.
Aliás, era uma das grandes sacadas dele. Falar de amor com palavras próprias, explicando exatamente o que não tem explicação.
No começo, temos:
"Pra que mentir/ fingir que perdoou/ Tentar ficar amigos sem rancor?" É a primeira atitude quando um romance acaba: fingir que o alvo de nosso amor não nos interessa mais, que as mágoas ficaram pra trás.
"A emoção acabou/ Que coincidência é o amor/ A nossa música nunca mais tocou" Uma espécie de ironia ocorre aqui: como se o personagem gargalhasse da falta que sente do ser amado. Agora que ele não tem mais o alvo do amor, é que descobre o quanto a pessoa é importante em sua vida.
"Pra que usar de tanta educação/ Pra destilar terceiras intenções?/ Desperdiçando o meu mel/ Devagarzinho flor em flor/ Entre os meus inimigos, beija-flor". Aqui o personagem abre o verbo e expõe sua mágoa mais evidente, de que o ser amado usa de educação e o transforma numa pessoa mais gentil, melosa do que costuma ser, fazendo-o "desperdiçar o mel",  tendo tratamento doce, quando na verdade a amargura de uma relação mal resolvida está lá. E ele age desta maneira com outras "flores", ou seja, pessoas que conhece e que nem merecem. Até mesmo com inimigos age como um beija-flor, delicado, generoso.
"Eu protegi seu nome por amor/ Em um codinome Beija-flor/ Não responda nunca, meu amor/Nunca/ Pra que um na rua, Beija-Flor". A explosão da poesia e do amor acontece aqui nestes versos. Ele sabe que a amada não pode ser mais dele - talvez esteja casada ou num relacionamento estável, logo, ele não pode dizer o seu nome. O modo que encontrou para mencioná-la sem correr risco de atrapalhar seu novo romance, é usando um apelido. E se por acaso ele sem querer disser o nome dela, que ela não responda jamais: "Pra qualquer um na rua, Beija-flor".
"Que só eu que podia/Dentro da tua orelha fria/Dizer segredos de liquidificador". Quando uma pessoa ainda ama, é natural ter ataque de narcisismo, do tipo que só ela pode amar a outra de maneira superior.
A passagem "segredos de liquidificador"  ainda é um mistério, a despeito dos 30 anos que a música foi lançada.
Eu, Mary, tenho uma opinião sobre o que pode ser. Já li em algumas matérias, que Cazuza adorava filmes. É possível que ele tenha visto o mesmo filme que eu, um que a Globo passou (era um trabalho já antigo; a Globo estava reprisando num desses Corujões), onde o personagem, quando foi contar algo secreto para a namorada, pediu à moça que ligasse o liquidificador,  para que o barulho alto atrapalhasse a audição de quem quisesse tentar ouvir o que diziam.
Talvez a referência seja exatamente essa do nosso Poeta do Rock: contar um segredo tão obscuro ou profundo, que só a amada poderia saber. É claro: para a moça poder escutar, só ele contando bem pertinho do ouvido. Embora seja um segredo importante, ela parece não ligar muito, por isso ele diz: "dentro da sua orelha fria". Coisas do amor que só se dá valor quando perde...
Nos versos: "Você sonhava acordada/Um jeito de não sentir dor/ Prendia o choro/ E aguava o bom do amor", vemos que ele relembra junto à ela, que o romance acabou muito pelo seu calculismo, o tipo de pessoa que não se entrega inteiramente à relação. Mas apesar da não-entrega, guardava ressentimentos. Não chorava no momento que era magoada. Só liberava o rancor nos momentos de prazer do casal. Esse "aguava o bom do amor" pode significar as lágrimas que derramava na relação, mas também pode ser uma metáfora, significando que ela quebrava o clima, ficava gelada, "aguava" o romance deles.
Quando um relacionamento termina e ao mesmo tempo foi mal resolvido, sempre há um desconforto quando o ex-casal se reencontra., sobretudo, em lugares públicos.
O máximo que os ex-companheiros podem se auto- exigir  é que sejam civilizados o suficiente para não atrapalharem os novos relacionamentos que cada qual tenha, nem trocar injúrias um ao outro.
Perfeita na sua essência Codinome Beija-flor soube expressar essa sutileza de pessoas que amam, embora em sua realidade não caiba mais os floreios de antes.
Agora é construir novos jardins, com outras flores, para que eles se tornem bons beija-flores em novos amores!...

Em tempo: Gosto tanto de beija-flor, que uma vez escrevi um post sobre ele. Confira neste link:
http://marymiranda-fatosdefato.blogspot.com/2010/09/o-beijo-do-beija-flor.html

 Vídeo de Codinome Beija-flor - Cazuza





(Imagem:
Fonte desconhecida
Edição de imagem:
https://www.facebook.com/MaryDifattoOficial)


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