PARA QUEM AMA GATOS

PARA QUEM AMA GATOS
https://www.youtube.com/c/RonronseGatices
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Análise de "Codinome Beija-flor", com Cazuza



A música é Codinome Beija-flor, composta por Reinaldo Arias, Cazuza e Ezequiel Neves, do álbum Exagerado, de 1985.
Cazuza escreveu a letra quando estava deitado no Hospital São Lucas, e observava beija-flores na janela.
Qual é o foco principal da música? Um amor que ainda existe, mas que o relacionamento não terminou bem.
Poderíamos parar aqui a definição. Mas em se tratando do Poeta do Rock, ninguém menos que Cazuza, vale a pena destrinchar cada verso deste lirismo, contado e cantado com outras palavras.
Aliás, era uma das grandes sacadas dele. Falar de amor com palavras próprias, explicando exatamente o que não tem explicação.
No começo, temos:
"Pra que mentir/ fingir que perdoou/ Tentar ficar amigos sem rancor?" É a primeira atitude quando um romance acaba: fingir que o alvo de nosso amor não nos interessa mais, que as mágoas ficaram pra trás.
"A emoção acabou/ Que coincidência é o amor/ A nossa música nunca mais tocou" Uma espécie de ironia ocorre aqui: como se o personagem gargalhasse da falta que sente do ser amado. Agora que ele não tem mais o alvo do amor, é que descobre o quanto a pessoa é importante em sua vida.
"Pra que usar de tanta educação/ Pra destilar terceiras intenções?/ Desperdiçando o meu mel/ Devagarzinho flor em flor/ Entre os meus inimigos, beija-flor". Aqui o personagem abre o verbo e expõe sua mágoa mais evidente, de que o ser amado usa de educação e o transforma numa pessoa mais gentil, melosa do que costuma ser, fazendo-o "desperdiçar o mel",  tendo tratamento doce, quando na verdade a amargura de uma relação mal resolvida está lá. E ele age desta maneira com outras "flores", ou seja, pessoas que conhece e que nem merecem. Até mesmo com inimigos age como um beija-flor, delicado, generoso.
"Eu protegi seu nome por amor/ Em um codinome Beija-flor/ Não responda nunca, meu amor/Nunca/ Pra que um na rua, Beija-Flor". A explosão da poesia e do amor acontece aqui nestes versos. Ele sabe que a amada não pode ser mais dele - talvez esteja casada ou num relacionamento estável, logo, ele não pode dizer o seu nome. O modo que encontrou para mencioná-la sem correr risco de atrapalhar seu novo romance, é usando um apelido. E se por acaso ele sem querer disser o nome dela, que ela não responda jamais: "Pra qualquer um na rua, Beija-flor".
"Que só eu que podia/Dentro da tua orelha fria/Dizer segredos de liquidificador". Quando uma pessoa ainda ama, é natural ter ataque de narcisismo, do tipo que só ela pode amar a outra de maneira superior.
A passagem "segredos de liquidificador"  ainda é um mistério, a despeito dos 30 anos que a música foi lançada.
Eu, Mary, tenho uma opinião sobre o que pode ser. Já li em algumas matérias, que Cazuza adorava filmes. É possível que ele tenha visto o mesmo filme que eu, um que a Globo passou (era um trabalho já antigo; a Globo estava reprisando num desses Corujões), onde o personagem, quando foi contar algo secreto para a namorada, pediu à moça que ligasse o liquidificador,  para que o barulho alto atrapalhasse a audição de quem quisesse tentar ouvir o que diziam.
Talvez a referência seja exatamente essa do nosso Poeta do Rock: contar um segredo tão obscuro ou profundo, que só a amada poderia saber. É claro: para a moça poder escutar, só ele contando bem pertinho do ouvido. Embora seja um segredo importante, ela parece não ligar muito, por isso ele diz: "dentro da sua orelha fria". Coisas do amor que só se dá valor quando perde...
Nos versos: "Você sonhava acordada/Um jeito de não sentir dor/ Prendia o choro/ E aguava o bom do amor", vemos que ele relembra junto à ela, que o romance acabou muito pelo seu calculismo, o tipo de pessoa que não se entrega inteiramente à relação. Mas apesar da não-entrega, guardava ressentimentos. Não chorava no momento que era magoada. Só liberava o rancor nos momentos de prazer do casal. Esse "aguava o bom do amor" pode significar as lágrimas que derramava na relação, mas também pode ser uma metáfora, significando que ela quebrava o clima, ficava gelada, "aguava" o romance deles.
Quando um relacionamento termina e ao mesmo tempo foi mal resolvido, sempre há um desconforto quando o ex-casal se reencontra., sobretudo, em lugares públicos.
O máximo que os ex-companheiros podem se auto- exigir  é que sejam civilizados o suficiente para não atrapalharem os novos relacionamentos que cada qual tenha, nem trocar injúrias um ao outro.
Perfeita na sua essência Codinome Beija-flor soube expressar essa sutileza de pessoas que amam, embora em sua realidade não caiba mais os floreios de antes.
Agora é construir novos jardins, com outras flores, para que eles se tornem bons beija-flores em novos amores!...

Em tempo: Gosto tanto de beija-flor, que uma vez escrevi um post sobre ele. Confira neste link:
http://marymiranda-fatosdefato.blogspot.com/2010/09/o-beijo-do-beija-flor.html

 Vídeo de Codinome Beija-flor - Cazuza





(Imagem:
Fonte desconhecida
Edição de imagem:
https://www.facebook.com/MaryDifattoOficial)


6 comentários:

Unknown disse...

Análise perfeita! :O Parabéns!
Segredos de liquidificador...foi a primeira pessoa a responder.

Mary Miranda disse...

Olá!

Obrigada por ter gostado da análise!
É uma das músicas que mais curto do Cazuza.
Abraços! :)

CHARLES DOS SANTOS ALMEIDA disse...

Excelente análise, parabéns!

Mary Miranda disse...

Olá, Charles!
Obrigada pelo comentário!
Amo demais o Cazuza, e "Codinome" é uma das que mais me tocam dele!
Abração!

Anônimo disse...

Pode ser um devaneio da minha parte mas para mim, segredos de liquidificador, pode ser aquilo que amantes falam sobre "o bom do amor" que é o fato de fazer amor, sobre como é difícil se desnudar, estar exposto para o outro, dizer o que lhe agrada ou mesmo descobrir algo que não sabia que lhe agrada...

Unknown disse...

Amei a interpretação!Parabéns obrigada