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domingo, 17 de outubro de 2010

O cacique e o relógio de pulso


Há ocasiões que pessoas nos contam histórias, como se fossem piadas, ou seja, para rirmos, e lá ficamos refletindo sobre o entendimento, a moral, o "espírito da coisa".
Uma dessas piadas é interessantíssima pois, surpreendentemente, eu consegui encontrar três diferentes formas para compreendê-la, algo incomum no mundo do gracejo espontâneo!
Achei-a tão grandiosa, que resolvi transformá-la num pequeno conto.
Acompanhem comigo:

" Uma vez, um homem branco considerado civilizado, acostumado à vida moderna, tomou a decisão de visitar uma pequena aldeia indígena no interior do seu estado natal do nosso imenso Brasil.
Ficou interessado ao descobrir que uma jangada mais incrementada e segura o levaria em menos de uma hora para o outro lado do rio, onde teria contato com aquela gente que era brasileira, mas tão distante de tudo e de todos!
É bom explicar o que é "civilizado".
Quando se escuta ou lê esse termo, entende-se que se trata de qualquer sujeito que viva em cidade, cuja sociedade exige certas regras, como ter TV, celular, computador, carro e tudo o mais que valha para ser reconhecido em convívio social "adiantado".
Aquele homem branco nada conhecia sobre a cultura indígena, só o que os livros de História nos contam e, naturalmente, o estereótipo do índio nu, com pouca "cultura" e de fácil aceitação do que vem "do branco", povoa a mente dos socialmente adaptados.
Mas aquele homem branco queria saber o que acontecia de verdade.
Ele era um homem bom e só queria agradar uma tribo que desconhecia os costumes!
O que fazer, então?
Armado de uma mochila com várias bugigangas tecnológicas, lá foi ele, querendo ser generoso com aquela tribo brasileira que pouco conhecia...
Chegando lá, de cara é recebido pelo cacique, o chefe indígena.
Ficaram amigos com uma velocidade impressionante!
O cacique também falava o português, além de sua língua nativa indígena.
Logo ao chegar, ele havia aberto a sua mochila com os apetrechos "sociais" e dera a opção ao cacique para escolher o que lhe era mais interessante e importante.
O cacique, com o total desconhecimento para que fim teria quaisquer dos objetos, optou simplesmente, pelo o que lhe pareceu o mais bonito: um relógio de pulso.
- Para que serve isso? - perguntou o índio, colocando o relógio no pulso que era acostumado a apenas usar pulseiras de pena.
- Ah, isso é um relógio e ele serve para marcar as horas!
- E para que serve marcar as horas? - insistiu o indígena.
- É bom para saber quando é hora de almoçar, dormir, pescar e tudo o mais! - explicou o homem branco, assustado com o fato de alguma pessoa, no mundo, passar sem ver as horas durante o dia!
Daí ensinou a ver as horas e o cacique, muito inteligente, aprendeu rapidamente, sem problema algum.
Olhando à sua volta, o homem branco ficou extasiado!
Tudo tão limpo e bonito!
Numa rede gostosa, daquelas que dá vontade de dormir só de olhá-la, balançava a esposa, com o caçula de seis filhos.
Todos bonitos, arrumados, limpos e bem alimentados.
Arco e flecha denunciavam que caçavam.
A vara de pesca, que pescavam.
A enxada, que plantavam...
O chefe havia dito que nunca tinha ido à cidade grande, que o que sabia sobre a cultura "dos brancos" havia chegado através de alguns citadinos que ali foram visitar e ensinar a língua portuguesa.
Para saber se era manhã, olhavam o Sol nascendo ao leste, se era tarde, era só vê-lo se encaminhando para o oeste, e se era noite, a Lua que surgia esplendorosa após o Sol ir embora...
Os índios de sua aldeia sabiam "se virar" e muito bem, sem precisarem do que se chama "cidade grande"!...
Aquele homem branco ouvia tudo boquiaberto!
Eram mais ou menos 8 horas da manhã quando o tal homem branco ali chegara.
Estava tão animado com a conversa com o cacique, que as horas correram rapidamente!
Mais ou menos ao meio-dia, após longa conversa entre ambos, de fotos tiradas e muitas risadas, o cacique começou a sentir um ronco característico de fome no estômago.
Daí ele lembrou que estava com um objeto em seu pulso que "avisava" a hora de almoçar!
Mas, qual seria a hora de almoçar?
11 horas da manhã?
12 horas?
Ou seriam 13?
O cacique olhou bem os ponteiros e viu neles o menor marcando 11 e o maior marcando que eram 56 minutos.
- Qual é a hora de almoçar mesmo? - o velho cacique se perguntou.
O homem branco ficou surpreso que o índio a todo momento ficasse olhando aquele relógio, e indagou:
- Ô, chefe, que tanto você olha esse relógio?
O cacique observou bem o novo amigo à sua frente, sem saber o que dizer.
Então, falou:
- Índio quer saber se é hora de comer!
E olhou novamente o relógio.
- E aí, já está na hora do almoço? - perguntou aquele homem branco, todo satisfeito por ter dado um presente útil.
Naquela próxima olhadela do cacique, já eram 12 horas em ponto, mas o índio ainda não sabia se era ou não era a hora certa para a sua alimentação.
Quando o novo ronco apertou seu estômago de tal maneira, que quem estava perto ouviu o barulho, o cacique, olhando o relógio desesperado, sem mais se importar com as horas, disse, rapidamente:
- Sim, homem branco, está na hora de índio comer..."

Espero que tenham gostado dessa piada que transformei em conto!
Quem aí se arrisca à uma interpretação?

(Imagem:

http://www.whala.com.br/category/whalaverde/page/3/)

4 comentários:

bloguinhodiversos disse...

Muito Legal !

bloguinhodiversos disse...

Gostei

Mary Miranda disse...

Oi, Ricardo!

Fico feliz que tenha gostado!
Volte sempre que for possível!
Um abraço,
Mary :)

Mary Miranda disse...

Oi, pessoal!

Colocarei aqui o comentário do Marivan lá no diHITT.
Achei interessante a visão dele:

"Sorte do Homem branco que o indio não era canibal,
abçs e boa semana."

A minha resposta foi essa:

"Oi, Marivan!

Mais uma reflexão interessante sobre o conto... rsrs
Gostei!!!!
Abração da Mary pra você! :)"

Quem quiser dar sua opinião também, estamos aí! rs
Abraços da Mary a todos!!!!

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