PARA QUEM AMA GATOS

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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Black


Conto de hoje:  Black
Do livro de contos VIDA, VEZ... VOZ DE GATO!,  de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
A história de um gato contada por ele mesmo.



                                           Black



O meu problema começou pura e simplesmente por eu ser pretinho.
Nasci numa ninhada de quatro gatinhos,  todos claros, e minha mãe gata também. Só eu de pelagem totalmente preta.
Quando eu estava um pouco crescido, a minha ex-tutora me botou numa bolsa de supermercado, me deixou mamar bastante uma hora antes, me despejando num lixão bem longe da casa dela.
Meus irmãos continuaram lá; só eu fui excluído daquele convívio.
Na época quando eu morava na antiga casa,  muitas pessoas chegavam para brincar com meus manos, e quando me viam, faziam uma cara esquisita, como se eu tivesse alguma doença.
Comentavam logo que olhavam para mim:
- Cruzes, gato preto! Esse bicho dá um azar...

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Soninha



Conto de hoje: Soninha.
Do livro de contos VIDA, VEZ... VOZ DE GATO!, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
A história de um gato contada por ele mesmo.


                                                            
                                Soninha



O meu começo de vida foi complicado: de uma ninhada de 5 gatinhos, só eu sobrevivi.
É porque minha mamãe gata, que não possuía casa, teve os bebês no mato, e por isso, não pôde nos proteger direito, quando caiu uma chuvarada, mais ou menos, uns trinta dias depois que nascemos.
Aquela tempestade nos atingiu de tal maneira, que a maioria de nós pegou pneumonia. Daí,  eu só aguentei porque era muito gulosa: mamava mais que os outros. Fiquei mais forte, com mais proteínas.
Mamãe, coitadinha, saía para caçar comida todos os dias, para ela própria sobreviver. Era magrinha que só!
Permanecia eu quietinha, esperando o retorno dela, eu que começava a andar com certa firmeza, já conseguindo identificar quando havia uma invasão de inimigos em nosso território (corria mato adentro, só aparecendo quando mamãe chamava). Era uma alegria quando voltava! Mamava tanto, e me aconchegava na barriga dela, até o sono chegar...
Certo dia, quando mamãe saiu em busca de alimento, voltou acompanhada de uma criatura até então esquisita para mim: um ser humano!
Mamãe não brigou com essa criatura, quando ela sorriu e tentou me pôr no colo.
Não conseguiu porque eu não deixei; corri feito louca! Sei lá quem era aquele ser estranho? Na dúvida, preferi sumir...

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana (conto)





Conto de hoje: Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana
Da antologia homônima IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA, de Mary Difatto.
Última publicação dessa antologia.
Bons "imprevistos de viagem"!



IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA



O trajeto era o mesmo. O horário e a linha de ônibus também, de todos os dias úteis da semana.
Porém, algo ali soava incomum àquela panfletista de uma instituição voltada para o meio ambiente.
Sônia levava de uma, a uma hora e meia, para chegar ao Centro da cidade.
Estando lá, recebia instruções para a entrega das filipetas, qual o bairro, rua, até que horas ficaria, qual equipe iria junto, quais pessoas naquele lugar seriam ideais a serem abordadas. Tudo para conquistar ao máximo a atenção do público-alvo. Pertencia a uma empresa de renome, que queria “limpar” a má fama de contraventora, apoiando causas nobres.
A singularidade do dia de Sônia começou, ao sentar-se no quinto banco à direita, junto à janela (por estar na maioria das vezes cheio, ela tinha que se contentar quase sempre com o assento do corredor).
Era bom sentir o ventinho vindo lá de fora! (Infelizmente, seu ônibus pertencia ao infeliz clube dos “sem ar-condicionado”, portanto, sentar-se à janela era um luxo!...)
Tirou o seu fone de ouvido, daqueles que cobrem toda a orelha, evitando problemas auditivos que com o tempo pode ser provocado pelos decibéis a mais  que os fones comuns costumam ocasionar.
Comprou um de cor única, totalmente cinza, para não chamar o olhar cobiçoso de ninguém. Tomar a atenção, só na panfletagem, onde Sônia mostrava-se intensamente despachada.
Seu celular era simples, da mesma cor do fone, sem aplicativos, sem alta tecnologia; servia só para falar e ouvir rádio FM. Não havia uma estação a qual ela fosse fiel. Porque nenhuma tocava o que ela gostaria de ouvir, isto é, “tudo”. Dentro da música, ela era verdadeiramente eclética. Do pagode à música clássica, os ouvidos da panfletista aceitavam com gosto. Quando enjoava de um estilo musical, passava para outra estação, e tomava essa atitude invariavelmente, na já acostumada rotina de ida e volta do trabalho.
Estava ligada a um som vibrante do rádio, que naquela área onde o ônibus estava, dava um pequeno chiado pela falta de frequência completa, quando um rapaz se sentou ao seu lado, pedindo licença antes.
Uns 10 minutos de viagem apenas havia transcorrido para Sônia, e ela contava com a distração que vinha do seu rádio, tão somente isso.
No entanto, o tal rapaz demonstrava uma tristeza tão profunda, que a moça passou a prestar a atenção em seus atos, para captar-lhe os reais sentimentos.
Logo, ele próprio puxou conversa:

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Gêmeas de Corpo e Alma


Conto de hoje: Gêmeas de Corpo e Alma.
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA,  de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!




GÊMEAS DE CORPO E ALMA




Elas eram gêmeas. Duas mulheres feitas, unidas pelo nascimento. Partilhavam de tudo juntas. Gêmeas de corpo e alma.
Por uma grande força do destino, apesar de gêmeas bivitelinas, ou seja, formadas com óvulos e placentas diferentes, eram muito parecidas.
Karen e Karina, os seus nomes.
Tinham a irmã mais velha, que elas pouco se comunicavam. Irmãos gêmeos são mais irmãos que os outros, de partos individuais...
A família delas era essencialmente feminina – as gêmeas, a irmã mais velha, a mãe e a avó –, e elas costumavam ser paparicadas, sempre chamadas de “meninas”, mesmo estando formadas em arquitetura, adultas o suficiente para saírem de casa, logo quando quisessem.
Quem optou pela arquitetura foi Karina, mas Karen sempre fazia o que a outra escolhia; lembrando bem o “maria-vai-com-as-outras”, que tanto a sabedoria popular repete.
Ambas trabalhavam na mesma empresa; ambas namoravam gerentes de banco. Eram tão unidas, que uma vez Karina não quis ir a um evento. Karen, que já tinha marcado com o namorado com antecedência, preferiu não ir também,alegando problemas de saúde. As gêmeas não se largavam nunca...
Pâmela, a irmã das duas, não confessava, mas a magoava bastante a atitude das caçulas de a preterirem sob qualquer aspecto, como se ela fosse apenas “alguém da família”. Uma diferença mínima de três anos, não a fazia com tal distância etária assim, para que as gêmeas não pudessem incluí-la.
O erro talvez tivesse sido da mãe, que conversava coisas sérias ou banalidades em separado. Primeiro, chamava a mais velha; depois as caçulas. Formava um “bloco separatista”, feito um complô onde o “campo inimigo” não poderia saber os próximos atos.
Mas Pâmela tinha orgulho delas. Considerava as “meninas” muito inteligentes e descoladas, que ela poderia dizer para os amigos: “Foram as gêmeas que fizeram!”, quando viam os muitos croquis que levava para o trabalho.
Ela mesma não tinha formação acadêmica. Mal terminara o Ensino Médio, e fora chamada para ser atendente de guichê na Rodoviária Novo Rio. Falava o inglês intermediário e o espanhol fluentemente, ambos idiomas aprendidos na correria do cotidiano atendendo passageiros diversos. Também com um esforço maior para o aperfeiçoamento.
Invariavelmente, Karen e Karina criticavam o jeito de se vestir de Pâmela, sugerindo que ela fosse “jeca”.
Numa das poucas festas que as moças convidaram a mana mais velha, assemelhava-se a um acontecimento nababesco, tal era o tato das gêmeas com a vestimenta de Pâmela: