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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Chave: Advérbio de Lugar, de Mary Difatto - Resenha por Carlos Zürck Cruz

 



A BUSCA COMO ESPELHO DA ALMA

 

“A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.”

Elizabeth Bishop

("Metade" de Adriana Calcanhotto, música maestro!)

 

           , em uma narrativa com pitadas de melancolia urbana, sarcasmo, ironia e uma busca quase kafkiana, somos apresentados a uma jovem contemporânea, trabalhadora resiliente, de 27 anos (seria uma referência ao “Clube dos 27”, que reúne astros da música falecidos nessa idade?), recém-saída de um relacionamento conjugal, que aos domingos como uma “mulher livre”, encontra nos bares próximos de casa, um lenitivo para suas manhãs / tardes solitárias. (AVISO DE SPOILER) >>>> Entre um drinque e outro, divide mesas com desconhecidos e uma vez em casa, assiste jogos de futebol, construindo uma rotina de pequenos rituais que a mantêm de pé, firme e ativa. Mas tudo muda quando uma tarde, na voltar do bar, depois de entrar em casa, sem perceber, distraída pelo ruido inesperado de um pássaro, deixa cair a chave na lata de lixo do quintal.  <<<< (AVISO DE SPOILER)

          O que se segue é uma busca obsessiva e insana, cômodo por cômodo, gaveta por gaveta, que dura meses, com a ajuda de sua avó, que possui uma cópia da chave. A recusa da protagonista em fazer uma nova cópia transforma a procura em um labirinto emocional, até que uma lembrança aparentemente banal, mostra a verdade: a chave está, para sempre, perdida.

          O livro não é sobre uma chave que se perdeu, é sobre o vazio que se instala quando a vida exige mudanças. A protagonista, recém separada, não busca apenas um objeto: busca um ponto de ancoragem após uma existência anterior que se desfez. Cada cômodo revirado, sala, cozinha, quarto, banheiro, quintal, funciona como uma metáfora dos seus espaços internos que tenta reorganizar.

        O "acaso", muitas vezes, manifesta um ato falho. Eventos cotidianos que parecem "acidentes", carregam fortes significados inconscientes.  (AVISO DE SPOILER) >>>> Uma chave, símbolo do acesso, poder, segredo e transição, que cai no lixo por “acaso” e desaparece, ao mesmo tempo que está ligada a memórias e rotinas, nos remete a necessidade de desapego e ao encerramento de um ciclo. <<<< (AVISO DE SPOILER) Em suma, a protagonista não está procurando uma forma de fechar ou abrir portas, ela está procurando paradoxalmente, “os tais caquinhos” de si mesma e da sua segurança que sumiu junto com o objeto. A recusa em fazer uma cópia é reveladora: copiar a chave seria admitir a perda. A busca insistente por uma chave de casa perdida, quando fazer uma cópia seria mais rápido, prático e sensato, revela que o que está em jogo não é o objeto físico, mas o que ele representa: identidade, segurança e controle sobre a própria vida. Se tomarmos a casa como uma alegoria da nossa psiquê, a chave original representaria o direito legítimo de alcançar quem realmente somos, aceitar uma cópia, simbolicamente, passa a sensação de estar usando um "substituto", uma farsa, para acessar a própria existência. A protagonista almeja a chave original porque quer recuperar sua essência intocada, não uma versão. Deixar a chave perdida para trás significa aceitar o mistério e a negligência, procurá-la obsessivamente, uma tentativa de "corrigir" um erro e, repito, fechar um ciclo.

          AVÓ, CUMPLICIDADE CONSANGUÍNEA

          A presença da avó é um dos pontos altos da narrativa. Ela não questiona, não julga, apenas ajuda, não sem alguma crítica, ainda que suave, ao comportamento errático da neta. Sua presença discreta representa, além da ancestralidade, a única continuidade afetiva na vida da protagonista. É ela quem guarda a outra chave e, simbolicamente, quem guarda a possibilidade da neta ainda manter um lar para onde regressar. A relação entre as duas é tecida com diálogos curtos, pequenos gestos, algum silencio e uma paciência por parte da avó, que beira o sagrado.

           O BEM-TE-VI E O ACASO

           O pássaro que aparece no quintal no exato momento da perda é um daqueles detalhes que a literatura transforma em destino, circunstância inevitável que foge ao controle humano e conduz o rumo da existência. O canto do bem-te-vi, soa como uma ironia e funciona como um lembrete de que a vida segue, mesmo quando tudo parece desmoronar. A distração causada pelo pássaro não é um acidente: é a vida invadindo o script controlado de uma mulher que, no fundo, talvez quisesse perder aquela chave. Perder para poder recomeçar.

          (AVISO DE SPOILER) >>>> O GARI E O ESQUECIMENTO

          Quando a protagonista enfim chega à conclusão de que, possivelmente, a chave caiu na lata de lixo e foi levada pelo caminhão, o leitor sente um misto de alívio e devastação. O gari, figura anônima, cotidiana, quase invisível, torna-se o agente do esquecimento. Ele levou não só a chave, mas a possibilidade de se voltar atrás. O que resta é o presente: uma casa sem chave, uma vida sem casamento, uma mulher que precisa aprender, daqui para diante, habitar o vazio e ressignificá-lo. <<<< (AVISO DE SPOILER) 

          ESTILO E TOM

         
A escrita é contemporânea: diálogos diretos incorporando termos do cotidiano e das redes sociais; hibridismo de gêneros: cruzando romance, crônica, poesia, autoficção; fragmentação e fluidez temporal: foco na subjetividade, na solidão, nas crises existenciais e na velocidade do contemporâneo. Texto curto adaptado à leitura rápida e ao meio digital, mas também contido, quase minimalista,
carregado de uma melancolia não anunciada. Os diálogos importam menos que os gestos, a narrativa se constrói em camadas de memória e repetição: a busca que se renova, os cômodos que se revisita, as tardes de domingo de bar e futebol, se acumulam como invariável rotina. Há ecos de Virginia Woolf – no seu livro “Um Teto Todo Seu”, o "quarto próprio" representa a necessidade de independência financeira e espaço intelectual onde as mulheres possam criar e exercer sua liberdade -, bem como Clarice Lispector, na forma como o cotidiano se transforma em questão existencial, mas o livro tem voz própria: é uma história sobre perda, recomeço e a dificuldade de aceitar que algumas chaves, físicas ou emocionais, não têm cópias. Leitura obrigatória para quem já perdeu algo que nunca foi apenas um objeto e/ou leitores que apreciam narrativas sobre “solitude”, memória e a poesia dos gestos banais. É um livro sobre a coragem de admitir que a chave se foi, que a casa talvez nunca tenha sido um lar, e que o bem-te-vi, no fundo, estava certo, ele viu. Viu a queda, viu o esquecimento, viu a mulher que precisava “perder” para finalmente começar a se encontrar.

 

IPC: leia o “sumário”, use de discernimento.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

No Before Yes, romance de Mary Difatto, agora disponível na Amazon



Uma notícia que me emociona muito: Não Antes do Sim, de Mary Difatto, acaba de ganhar sua edição em inglês. 📚🇺🇸

No Before Yes já está disponível na Amazon Kindle, levando a história de Tamara para novos leitores e, pela primeira vez, colocando este romance brasileiro no mercado internacional de língua inglesa.

A tradução foi feita por mim, autora da obra, preservando o universo, a linguagem, o humor, as referências culturais e, sobretudo, a voz de Tamara.

Depois de tantos anos escrevendo esta história, vê-la agora atravessar outra língua é uma sensação difícil de explicar. Talvez algumas conquistas simplesmente precisem ser sentidas.

No Before Yes já está disponível na Amazon Kindle.

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I’m thrilled to announce that No Before Yes, de Mary Difatto, is now available in English on Amazon Kindle. 🇺🇸📚


My novel, originally written in Brazilian Portuguese, has now crossed another border — into English, with the translation written by the author.

No Before Yes is a striking, visceral work of neuroliterature that takes the reader deep inside Tamara’s mind, exploring love, identity, pain, survival, relationships, and borderline personality disorder.

For everyone who has ever wondered what it feels like to live with emotions that refuse to stay quiet: Tamara is waiting for you.

Available now on Amazon Kindle.
link: amazon.com/dp/B0HL7Z6S5N📙

(Imagem: www.marydifatto.com.br)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Está chegando!!!! Tarde de Autógrafos Cial Brito


Tarde de Autógrafos Cial Brito, dia 15 de agosto.

A Biblioteca Cial Brito abre seu espaço para receber os escritores Mary Difatto, Luiz Coelho Medina e Eliane Gonçalves.

Venha conhecer a mente por trás das histórias!

Uma tarde especial de encontro e troca de vivências.

ENTRADA GRATUITA

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