quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Black
Conto de hoje: Black
Do livro de contos VIDA, VEZ... VOZ DE GATO!, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
A história de um gato contada por ele mesmo.
Black
O meu problema começou pura e simplesmente por eu ser pretinho.
Nasci numa ninhada de quatro gatinhos, todos claros, e minha mãe gata também. Só eu de pelagem totalmente preta.
Quando eu estava um pouco crescido, a minha ex-tutora me botou numa bolsa de supermercado, me deixou mamar bastante uma hora antes, me despejando num lixão bem longe da casa dela.
Meus irmãos continuaram lá; só eu fui excluído daquele convívio.
Na época quando eu morava na antiga casa, muitas pessoas chegavam para brincar com meus manos, e quando me viam, faziam uma cara esquisita, como se eu tivesse alguma doença.
Comentavam logo que olhavam para mim:
- Cruzes, gato preto! Esse bicho dá um azar...
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Soninha
Conto de hoje: Soninha.
Do livro de contos VIDA, VEZ... VOZ DE GATO!, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
A história de um gato contada por ele mesmo.
Soninha
O meu começo de vida foi complicado: de uma ninhada de 5 gatinhos, só eu sobrevivi.
É porque minha mamãe gata, que não possuía casa, teve os bebês no mato, e por isso, não pôde nos proteger direito, quando caiu uma chuvarada, mais ou menos, uns trinta dias depois que nascemos.
Aquela tempestade nos atingiu de tal maneira, que a maioria de nós pegou pneumonia. Daí, eu só aguentei porque era muito gulosa: mamava mais que os outros. Fiquei mais forte, com mais proteínas.
Mamãe, coitadinha, saía para caçar comida todos os dias, para ela própria sobreviver. Era magrinha que só!
Permanecia eu quietinha, esperando o retorno dela, eu que começava a andar com certa firmeza, já conseguindo identificar quando havia uma invasão de inimigos em nosso território (corria mato adentro, só aparecendo quando mamãe chamava). Era uma alegria quando voltava! Mamava tanto, e me aconchegava na barriga dela, até o sono chegar...
Certo dia, quando mamãe saiu em busca de alimento, voltou acompanhada de uma criatura até então esquisita para mim: um ser humano!
Mamãe não brigou com essa criatura, quando ela sorriu e tentou me pôr no colo.
Não conseguiu porque eu não deixei; corri feito louca! Sei lá quem era aquele ser estranho? Na dúvida, preferi sumir...
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana (conto)
Conto de hoje: Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana
IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM
COTIDIANA
O trajeto era o mesmo. O horário e a linha de ônibus também, de todos
os dias úteis da semana.
Porém, algo
ali soava incomum àquela panfletista de uma instituição voltada para o meio ambiente.
Sônia levava de
uma, a uma hora e meia, para chegar ao Centro da cidade.
Estando lá,
recebia instruções para a entrega das filipetas, qual o bairro, rua, até que
horas ficaria, qual equipe iria junto, quais pessoas naquele lugar seriam
ideais a serem abordadas. Tudo para conquistar ao máximo a atenção do
público-alvo. Pertencia a uma empresa de renome, que queria “limpar” a má fama
de contraventora, apoiando causas nobres.
A
singularidade do dia de Sônia começou, ao sentar-se no quinto banco à direita,
junto à janela (por estar na maioria das vezes cheio, ela tinha que se
contentar quase sempre com o assento do corredor).
Era bom sentir o ventinho vindo lá de fora! (Infelizmente, seu ônibus
pertencia ao infeliz clube dos “sem ar-condicionado”, portanto, sentar-se à
janela era um luxo!...)
Tirou o seu fone de ouvido, daqueles que cobrem toda a orelha,
evitando problemas auditivos que com o tempo pode ser provocado pelos decibéis
a mais que os fones comuns costumam ocasionar.
Comprou um
de cor única, totalmente cinza, para não chamar o olhar cobiçoso de ninguém.
Tomar a atenção, só na panfletagem, onde Sônia mostrava-se intensamente despachada.
Seu celular
era simples, da mesma cor do fone, sem aplicativos, sem alta tecnologia; servia
só para falar e ouvir rádio FM. Não havia uma estação a qual ela fosse fiel.
Porque nenhuma tocava o que ela gostaria de ouvir, isto é, “tudo”. Dentro da
música, ela era verdadeiramente eclética. Do pagode à música clássica, os
ouvidos da panfletista aceitavam com gosto. Quando enjoava de um estilo
musical, passava para outra estação, e tomava essa atitude invariavelmente, na
já acostumada rotina de ida e volta do trabalho.
Estava
ligada a um som vibrante do rádio, que naquela área onde o ônibus estava, dava
um pequeno chiado pela falta de frequência completa, quando um rapaz se sentou
ao seu lado, pedindo licença antes.
Uns 10
minutos de viagem apenas havia transcorrido para Sônia, e ela contava com a
distração que vinha do seu rádio, tão somente isso.
No entanto,
o tal rapaz demonstrava uma tristeza tão profunda, que a moça passou a prestar
a atenção em seus atos, para captar-lhe os reais sentimentos.
Logo, ele
próprio puxou conversa:
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Gêmeas de Corpo e Alma
Conto de hoje: Gêmeas de Corpo e Alma.
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!
GÊMEAS DE CORPO E ALMA
Elas
eram gêmeas. Duas mulheres feitas, unidas pelo nascimento. Partilhavam de tudo
juntas. Gêmeas de corpo e alma.
Por uma grande
força do destino, apesar de gêmeas bivitelinas, ou seja, formadas com óvulos e
placentas diferentes, eram muito parecidas.
Karen e Karina,
os seus nomes.
Tinham a
irmã mais velha, que elas pouco se comunicavam. Irmãos gêmeos são mais irmãos que
os outros, de partos individuais...
A família
delas era essencialmente feminina – as gêmeas, a irmã mais velha, a mãe e a avó
–, e elas costumavam ser paparicadas, sempre chamadas de “meninas”, mesmo
estando formadas em arquitetura, adultas o suficiente para saírem de casa, logo
quando quisessem.
Quem optou
pela arquitetura foi Karina, mas Karen sempre fazia o que a outra escolhia;
lembrando bem o “maria-vai-com-as-outras”, que tanto a sabedoria popular
repete.
Ambas trabalhavam na mesma empresa; ambas namoravam gerentes
de banco. Eram tão unidas, que uma vez Karina não quis ir a um evento. Karen,
que já tinha marcado com o namorado com antecedência, preferiu não ir também,alegando problemas de saúde. As gêmeas não se
largavam nunca...
Pâmela, a
irmã das duas, não confessava, mas a magoava bastante a atitude das caçulas de
a preterirem sob qualquer aspecto, como se ela fosse apenas “alguém da
família”. Uma diferença mínima de três anos, não a fazia com tal distância
etária assim, para que as gêmeas não pudessem
incluí-la.
O erro
talvez tivesse sido da mãe, que conversava coisas sérias ou banalidades em
separado. Primeiro, chamava a mais velha; depois as caçulas. Formava um “bloco
separatista”, feito um complô onde o “campo inimigo” não poderia saber os próximos
atos.
Mas Pâmela tinha orgulho delas. Considerava as “meninas” muito
inteligentes e descoladas, que ela poderia dizer para os amigos: “Foram as
gêmeas que fizeram!”, quando viam os muitos croquis que levava para o trabalho.
Ela mesma não tinha formação acadêmica. Mal terminara o Ensino Médio, e
fora chamada para ser atendente de guichê na Rodoviária Novo Rio. Falava o
inglês intermediário e o espanhol fluentemente, ambos idiomas aprendidos na
correria do cotidiano atendendo passageiros diversos. Também com um esforço
maior para o aperfeiçoamento.
Invariavelmente, Karen e Karina criticavam o jeito de se vestir de
Pâmela, sugerindo que ela fosse “jeca”.
Numa das poucas festas que as moças convidaram a mana mais velha,
assemelhava-se a um acontecimento nababesco, tal era o tato das gêmeas com a
vestimenta de Pâmela:
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
Inveja Inexplicável
Conto de hoje: Inveja Inexplicável.
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!
INVEJA INEXPLICÁVEL
O vizinho de duas casas após a dele passou, com passos certeiros,
fazendo um sujeito de nome Ademar prestar bem a atenção em seus gestos.
Leandro era
um cara de porte atlético, não alto, mas de estatura mediana convincente,
semi-calvo, andar posudo, sorriso franco, olhos vigilantes, vivido e bem
quisto, no auge de seus quarenta e poucos anos. Não havia quem não gostasse
dele, considerado um exemplo do que é ser um bom vizinho.
Trabalhara
como paraquedista do Exército, chegando a oficial, e nos dois últimos anos,
infelizmente, por deslocamento da clavícula esquerda. Num dos raros saltos mal
dados, fora afastado para tratamento, logo em seguida, sendo aposentado, apesar
de sua imploração para que o mantivessem na infantaria. Sua aposentadoria
acontecera, não tendo ele motivo algum para reclamar: o dinheiro que recebia
mensalmente era bem adequado ao seu mérito.
Estava separado da esposa há dois anos, não tendo filhos. Com a atual
namorada, uma moça doze anos mais nova que ele, pretendia se casar novamente e
ter, pelo menos, um bebezinho para alegrar a casa. Leandro, por aquele tempo,
não morava com a namorada, e tinha a companhia apenas de um casal de cães e um
gato, todos castrados. A moça cansava de rir porque ele conversava com os animais
como se fossem crianças.
Talvez por ter sido do Exército, ele era bastante disciplinado.
Acordava muito cedo, comia alimentos sem gordura, seguia uma dieta balanceada.
Fazia exercício todos os dias na praça em seu próprio bairro, usando os dez
aparelhos não quebrados do espaço (dois deles, os vândalos trataram de
deteriorar). Corria o campo todo, ingerindo muita bebida isotônica. Sua
geladeira andava repleta delas, das melhores marcas.
Um dos seus
“luxos”, era ensinar truques aos seus animais de estimação.
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
A Doçura da Cana-de-Açúcar
Conto de hoje: A Doçura da Cana-de-Açúcar
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA,
de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!
A DOÇURA DA CANA-DE-AÇÚCAR
Seu Joaquim era
um dos daqueles senhores de cabeça branca, aposentado e de bem com a vida, do
tipo proseador, que se sentava na frente do portão com sua cadeira vermelha,
que ganhara de uma distribuidora de bebidas. Nem retirara o logotipo: trazia um
orgulho de ter conquistado a generosidade de uma grande empresa.
Aquele
senhor comprara seis terrenos, um ao lado do outro, num bairro simples da
Baixada Fluminense, há mais ou menos 40 anos. Resolveu murá-los como se fossem
um, e construiu uma imensa casa de laje, com cobertura de telha de barro para o
terraço aludindo, em parte, aos tempos feudais. Era o encanto do lugar.
Admitia que
tinha sido muita sorte conseguir aqueles terrenos por um preço módico. Mais
cinco anos, não compraria nem um: o bairro tinha chamado a atenção pela
descoberta de uma pequena e linda cachoeira escondida atrás de um morro
inóspito. Desbravado o morro, surgiu a cachoeira. Logo o bairro se tornara
parte de uma espécie de mapa turístico da cidade. Logo todos os terrenos
tomaram valores exorbitantes, que seriam difíceis para a compra, sobretudo para
um trabalhador braçal dos tempos do “mato”, onde o que se via eram apenas
plantações e ele, constituinte de um grupo grande de roçadores contratados (ou
agregados, como sugeriam alguns moradores), nem nutriria tamanha pretensão.
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
O Mistério do Sorvete
Conto de hoje: O Mistério do Sorvete.
Da antologia IMPREVISTOS DE UMA VIAGEM COTIDIANA, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, uma nova publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!
O MISTÉRIO DO SORVETE
– Quem detonou com o meu sorvete?
Era a
pergunta lançada aos gritos por Benito, ao voltar do trabalho por volta das 20
horas. Teria chegado mais cedo, se não fosse o trânsito conturbado.
Direcionou-se,
de imediato para o congelador, onde guardava o sorvete de creme de avelã, seu
favorito. Não o encontrando, ficou entre a decepção e a fúria. Até o pote
levaram. Não deixaram rastro.
Houve uma época, em que nada parava na geladeira daquela família. Os
moradores se assemelhavam a nuvem de gafanhotos que escolhia uma plantação:
devoravam tudo o que viam pela frente, que aludisse levemente a algo
comestível.
Aquele
sorvete em especial, Benito separara para ter um pouco de individualidade, ele
que era o cara imiscuído nos gostos da maioria. Tudo que comprava era para
todos; acabava sendo preterido na votação geral na escolha.
Mas ele tinha
consciência de que família grande costuma ser assim mesmo... No caso dele, era
gigante!
Dentro de casa, viviam: ele próprio, a mulher, os
cinco filhos, a mãe dele e a irmã solteira.
No mesmo quintal, uma espécie de “vila familiar”. Havia mais duas
casas, com dois irmãos casados ocupando cada qual, com suas respectivas esposas
e filhos.
Todos se sentiam no direito de “invadir” o lar alheio – sobretudo o de
Benito – e apanhar o que lhes interessasse. O alvo principal, em via de regra,
era a geladeira.
Mais por causa da mulher de Benito, que tinha dotes culinários, e
tirava certos dias para preparar iguarias que enchiam de água, as mais variadas
bocas.
Com o tempo,
tivesse ela cozinhado ou não, a geladeira parecia território livre: tudo que
ali estivesse, era consumido.
De tanto
ver o que cozinhava não parar na panela, e olhar a geladeira vendo-a vazia, a
despeito de ter feito compras recentemente, sua mulher fizera um trato com os
moradores da “vila”. Passara a vigorar uma “lei” que, somente nos dias marcados, trazendo eles ingredientes
suficientes, todo mundo poderia comer à vontade; repetir até. Nos dias
“comuns”, ninguém poderia tocar em nada naquela casa. Absolutamente nada.
Isso foi o que
deixou Benito mais louco de raiva:
–
Trato é trato, caramba! A maioria aqui é gente adulta, e sabe que não
pode mexer quando não for o dia... Ou será que foram vocês, crianças? – falou,
apontando para os três menores – Se foi um de vocês, vai me contar agora!
Duas meninas e um menino em idade
escolar, se entreolharam amedrontados, tão temerosos, que quando a maiorzinha
falou, sua voz era o próprio embargo:
–
Fui... eu... não, pai! Nem os outros! A gente... a gente tava brincando
no quarto com o videogame. A gente nem veio para a cozinha... A mamãe... a
mamãe que levou nosso lanche!... Não foi, mãe?
A mulher de
Benito confirmou:
– É, sim.
Elas não foram, com certeza! O pai de família estava revoltado:
– E os maiores, onde estão?
– Estão no curso de inglês;
você não sabe disso?
Benito
lembrou que os filhos adolescentes tinham aulas noturnas, às terças e sextas,
num ótimo curso de idiomas no Centro da cidade. Saíam da escola e iam
diretamente para lá.
– Então, foi quem?
– Sei lá... – a esposa
demonstrava confusão – Com tanta gente nessa
família!...
–
Tudo bem! Mas geral aqui é adulto, né? Eu não acredito! – me recuso a
acreditar – que aquela pouca-vergonha, de devorarem nossa comida toda, tenha
voltado. Depois de tudo que conversamos...
Seus
filhos, vendo que eles tinham sido devidamente absolvidos, voltaram ao quarto,
com o vozerio turbulento característico infantil.
– Eu não
queria acusar, mas estou achando que foi um dos meus sobrinhos... – refletiu
meio acabrunhado – Vou lá perguntar!
Perto das 21h,
alguns se preparando para assistir novela, e Benito fazendo interrogatório com
cada um dos sete sobrinhos, entre crianças e adolescentes.
Desta vez
resolveu chamar um por um, no canto, sem interferência de adultos.
O casal de gêmeos de dezesseis anos estava com bacia na mão se
entupindo de batata frita na frente da TV. Queriam assistir a uma cena lá
qualquer numa novela cheia de suspense.
Parecia que a mocinha iria finalmente botar em pratos limpos o que a vilã andou
aprontando com ela na ficção inteira. Coincidentemente, era o que Benito estava
ali para realizar: lavar as taças de sorvete supostamente sujas por um deles.
A
contragosto, o rapaz viera na cozinha, onde o moço do sorvete perguntou com
muita clareza:
– Foi você que pegou meu sorvete?
– Que sorvete?
– Meu sorvete, oras! Lá do meu congelador!...
– Pô, tio! O senhor sabe que
eu não gosto de sorvete...
– Mas ‘tá calor, né? Sempre
cai bem...
–
O senhor já me viu várias vezes recusando, mesmo quando alguém me
oferece! Não gosto mesmo, o senhor sabe disso...
Benito teve
que admitir que o garoto falava a verdade. Era do tipo que preferia comer
brócolis – que também não gostava – do que ingerir o alimento gelado. Dizia que
tinha nojo, que lembrava alguma coisa gosmenta de um filme que assistiu.
A irmã gêmea
fora chamada. Não queria vir de jeito nenhum. A novela tinha começado:
– Qual é, tio? O que que ‘tá pegando?
– Eu é que pergunto: quem
pegou meu sorvete?
–
Eu que vou saber?! Nem tenho entrado na sua casa por esses dias... O
senhor sabe muito bem que estou de castigo. Minha mãe só me deixa vir aqui na
sala para ver a novela. Depois, tenho que ir para o quarto, igual a uma condenada...
Na semana
passada, a sobrinha fora puxada pela orelha pelo pai por ter falado palavrão
para a avó, mãe de Benito e seus irmãos. Algo a ver com conselho que a garota
não gostou e arrumou rima chula para “Não bode, vó...” Falta de respeito com os
mais velhos era tratada com rigor pela família inteira.
– ‘Tá certo... – saiu da casa, inconformado.
O
primogênito, irmão dos gêmeos, não poderia ser suspeito por estar de férias, do
trabalho de meio período, em Angra dos Reis. Era um rapaz de seus dezessete,
quase dezoito. Benito não desconfiaria dele, mesmo que ali estivesse: era
diabético. Tomava insulina, tratava a doença com muito rigor. E ele, como tinha
o bom hábito de realizar exercícios físicos, nem parecia ter a doença. Se
descuidasse, era o mais saudável de todos daquela “vila”.
Só restava
os quatro meninos do seu irmão do meio, considerados muito arteiros, mas não
propriamente “ladrões” de comida. Até eram enjoados para se alimentar em
qualquer horário. Mesmo doces, era uma batalha para sentirem vontade de degustar.
Não eram
magros, mas longe de serem gordos. A conversa deles era com correr, soltar
pipa, ficar na rua até tarde, tendo a mãe para fazer a vizinhança toda conhecer
cada um de seus nomes e apelidos.
Entretanto,
Benito sentiu-se forçado a conferir por questão de justiça.
Eram meninos
com menos de doze; quando se juntavam os quatro, não saía coisa que
prestasse. Bagunça na certa era o resultado.
Talvez até por molecagem, tenham tirado o sorvete do congelador para
deixar o tio injuriado. Relembrando a infância, ele adorava deixar a mãe doida
de raiva. Um prazer inestimável ver adultos perdendo o controle.
O sobrinho de
cinco foi o primeiro a “depor”:
–
Não fui eu, não, tio! – com olhar de suspeito sem ser: – Eu não
alcanço, é muito alto.
Benito teve
que rir por dentro. O garotinho, sem querer, confirmou a máxima popular que diz
que “Vergonha não é roubar. Vergonha é roubar e não poder levar...” Ele não podia nem roubar...
– Tudo bem. Mas sabe quem foi?
Desconfiado, o
sobrinho balançou a cabeça negativamente.
– Legal. Pede para a sua mãe
chamar os outros aqui!
Imediatamente,
apareceu o segundo. Tinha nove anos. Ninguém dava mais de sete, por não ser
muito desenvolvido, apesar de ter uma força descomunal. Com cara de poucos
amigos viera; estava vencendo na queimada de sua rua contra a “equipe” da
outra. Quando voltasse ao jogo, poderia ser tarde demais. Não confiava na
habilidade de seus parceiros de “time”. O calor intenso permitia a esticada da
brincadeira até mais tarde.
– Minha mãe mandou me
chamar... O que aconteceu?
– A pergunta
é simples: foi você quem tomou o sorvete lá da minha geladeira? Revoltado, o
garoto só respondeu:
– Claro que não!
–
Por que “claro que não”? Você estava aqui à tarde, não é? Poderia ter
entrado e apanhado sem ninguém ver...
–
Eu cheguei da escola e nem almocei, se o senhor quer saber... Joguei a
mochila na cama e me mandei direto pra rua. Comi só a merenda mais ou menos ao
meio-dia. Minha mãe pagou geral em cima de mim, pensando que eu não tivesse
comido nada...
– Então você ficou o tempo
todo na rua desde que voltou da escola?
– É...
– Ok. Volta lá pra sua brincadeira!
Bem
próximo, vinha o mais arteiro dos quatro, com os seus sete anos. No entanto, o
mais sincero. Era só dar uma “dura”, que saía entregando.
– E aí? Tudo beleza?
– Tudo...
– Você sabe quem mexeu no
sorvete do tio?
– Eu não fui!...
–
Olha, não pode mentir... Você conhece a sua mãe! Se ela descobrir que
está mentindo, te coloca no quarto escuro sem poder sair...
A cunhada era rigorosa, mas jamais faria isso. No entanto, dava broncas
bem firmes nos garotos. Eles a respeitavam. Benito só quis amedrontá-lo para
obter a informação.
–
Eu não fui, não, tio... Hoje cheguei passando mal. Vomitei no recreio
depois que fui brincar no parquinho do colégio. Não comi nada até agora...
Pergunta a ela só!...
Daquela vez que você vomitou foi por causa que ficou rodando no
parquinho depois de comer?
– Foi...
– Sua mãe sabe disso?
– Não... Mas não conta pra
ela... Por favor, tio!
–
Não conto, pode deixar! Mas para com esse negócio, rapaz! Isso não faz
bem pra ninguém... – olhando firme para o garoto: – Se souber quem pegou o meu
sorvete, você fala, então, ‘tá? Trato nosso!
Um tanto
timidamente o menino apertou a mão do tio, e se afastou. Acabou que Benito
atirou no que viu, e acertou no que não viu. Agora tinha consciência do
problema do menino vomitando da escola. Nada de comida estragada: era só mais
uma das muitas artes do sobrinho.
O quarto e
último que apareceu, era um dos seus sobrinhos mais descolados, com onze anos,
de cabelo com reflexo de louro, e brinco de pequena argola na orelha esquerda.
“Menino bonito”, todo mundo admitia; inteligente também. Da turminha, era o
mais obediente, embora agitado.
Seu
problema maior era ser bem sonso. Difícil arrancar-lhe confissões. Chegou na
varanda, com a maior tranquilidade:
– Fala daí, tio!
– Você pegou o meu sorvete? –
disparou Benito, sem perder tempo.
– Não... – respondeu o menino,
igualmente veloz na fala.
–
Caramba! Colabora, rapaz! Alguém pegou o meu sorvete, e estou começando
a achar que vocês estão escondendo alguma coisa...
– Fala sério, tio! A gente nem
tem entrado na sua casa...
–
Isso não quer dizer nada! Vocês não têm entrado, mas escolheram hoje
para dar uma aparecida por lá. Vocês não são
proibidos...
–
Só que eu, esse tempo todo, estava fazendo dever de casa. Agora à noite
é que eu fiquei de papo com a galera ali na rua. Até joguei um pouco de
queimada também...
O mais descolado, o mais bonito, o mais sonso e um dos mais bagunceiros
dos sobrinhos era igualmente o mais inteligente. E sua inteligência vinha muito
de sua autodisciplina, de deixar de lado qualquer diversão para se dedicar aos
estudos. Benito sentiu que ele também não era o autor do “crime”.
–
Pelo jeito, vou ficar mesmo sem saber o paradeiro do meu sorvete...
Pode fazer o que você quiser. Está liberado!
Sem muita
ênfase, o garoto direcionou-se para o portão, dando indícios de que era iria
voltar ao que fazia antes, ou seja, uma traquinagem qualquer.
Benito não
ousava imaginar que algum dos adultos pudesse ser tão infantil assim, de passar
a mão em doce alheio após o trato tão bem feito.
Ficaria sem
saber, mas não perguntaria a nenhum deles. Seria, no mínimo, indelicado.
Sentou-se
no sofá de sua sala, consciente que o capítulo da novela faltava pouco para
terminar. A mocinha tinha desmascarado mesmo a vilã perigosíssima.
“Só eu que
não descubro quem pegou um simples sorvete...”, pensou Benito, um tanto
chateado.
Como se fosse
combinado, foi a vinheta de término do capítulo ressoar sala afora, para a mãe
e sua irmã retornarem com várias bolsas cheias.
Toda vez que visitavam a tia da
Tijuca, traziam novidades em forma de cortinas: de sala, de banheiro e de pia.
Eram muitas, de diversas cores, tamanhos e texturas.
–
Vocês não têm mais jeito! Saem comprando tudo daquela loja... Assim a
tia vai acabar ficando rica! – comentou com simplicidade Benito.
– Ah, nem pensamos duas vezes,
né, mãe? Tem cada coisa linda! Quer ver?
– Agora, não...
Lá do
quarto de casal, a esposa de Benito gritou, ela que costumava acompanhar os
noticiários dia e noite na TV paga:
– Não
adianta, não! Benito está de cara feia desde que voltou do trabalho! A mãe logo
ficou preocupada:
– Ué, meu
filho? Alguma coisa grave aconteceu? Sem titubear, declarou de imediato:
– Roubaram meu sorvete, mãe!
Logo depois de um leve suspiro e um meneio de cabeça, a
mãe confirmou perguntando, com certo desdém:
– Então, era isso?
–
E a senhora acha pouco? Em nossa família tem ladrão de comida, e fica
tudo por isso mesmo? E pior que foi adulto! Adulto, caramba, ADULTO!
Rindo, a mãe
tratou de falar:
– Fui eu, seu bobinho!
– A senhora????
A irmã ficou rindo, de pé,
imaginando o que estava se passando na mente de Benito. Nem na mãe poderia
confiar mais!
–
Euzinha! – sinalizando para a filha: – Vá lá buscar aquele negócio que
eu guardei no armário! Você sabe, a prova do
“crime”...
Já de volta,
a irmã de Benito ainda ria muito. Ela tinha o que se chama de “riso frouxo”.
–
Você vê se para também! – proferiu Benito, visivelmente injuriado –
Parece até uma hiena...
A moça nem
ligou. Agora o riso virou gargalhada.
–
‘Tá, mãe, a caixa de sorvete está aqui. Pra que eu quero uma caixa
vazia? Eu acredito no que disse, que foi a senhora quem pegou. A única pergunta
é: por
quê?
–
Se você não fosse tão guloso, perceberia logo o motivo. – a mãe estava
contrariada – Veja só a data do lado!
Benito olhou e
não achou nada demais:
– Ah, mãe, é só a data de fabricação...
– ... que traz junto a data de
validade! – completou a mãe.
Teatralmente a mãe se
levantou, tomou nas mãos a caixa e leu a data que continha. O prazo da validade
do produto já tinha explodido há dois meses!
– Caraca! Isso tudo?
–
Isso tudo! – repetiu ela. – Hoje que eu vi pela manhã. Joguei logo
aquela porcaria toda fora! Vai que você passa
mal?
– Mas por
que a senhora
não deixou um
bilhete, não ligou pra mim me avisando?
– Esqueci, é verdade. Foi um
erro meu... Não dá pra pensar em tudo, né?
Benito estava inconformado. Fizera um imenso “barulho” por
nada. Não passava de preocupação de uma mãe cuidadosa, zelando pela saúde de seu
filho.
–
Obrigado, obrigado mesmo! – já refeito – Se a senhora não faz isso,
iria ficar ingerindo sorvete passado até acabar. Um pote tão cheio ainda...
–
Agora é tratar de processar esse supermercado! Fica vendendo comida
podre para os clientes!...
–
Só que eu não guardei a notinha. – lamentou Benito – Bobeira minha!
Comprei anteontem,
podia ter deixado na carteira!...
– Pena... Mas ao menos você
lembra o nome do supermercado?
– Não... Há muitos por onde eu
passo. Qualquer um pra mim serve!
– Bom, está tudo resolvido!
Chega de estresse! – disse a mãe.
Indo guardar as lindas cortinas que comprara na loja da Tijuca, a mãe
virou-se para aconselhar:
–
Da próxima vez, observe bem a embalagem, para verificar a data
direitinho. E aproveita, meu filho, e cuida mais de sua saúde! Você se
empanturra demais de doces, salgados, gorduras... Tudo bem que seus irmãos
também são uns esfomeados, atacavam a sua geladeira aqui que era um terror, mas
eles fazem exercício todo dia, estão sempre testando a taxa de glicose com
exame de sangue. Nós já temos casos de diabetes na família; seu pai era. Seu
sobrinho, coitadinho, tem diabetes tipo 1, você sabe, já nasceu assim, e se
cuida muito bem.
“Agora, você, só vive deitado, comendo carboidrato e comida com gordura trans.
Sorvete, então, parece que você nem toma, come! Para ir à padaria, vai de
carro, – e a padaria é aqui na nossa rua! –, para pegar qualquer coisa, ao
invés de se levantar, pede pras crianças trazerem. Sua vida é muito sedentária,
meu filho! Vê se muda os seus hábitos, e logo!”
Reflexivo com o
que a mãe dissera, Benito afirmou:
–
Pode deixar, mãe, que a partir de hoje vou levar mais a sério a minha
saúde! A senhora tem razão! Eu ando muito descuidado e preguiçoso... Isso vai
mudar! Deixa comigo!
Continuou Benito comprando os seus alimentos favoritos, inclusive o
“sorvete da discórdia”, o tal de creme de avelã.
Não começou os
exercícios, e insistiu no erro de ir à padaria de carro.
Sentado ou deitado na sala vendo filme, eram os filhos que iam a
qualquer parte para atender a um pedido dele. Principalmente cerveja ou petiscos.
Comia de tudo, muito, ainda mais nos dias marcados pela mulher para a
comilança sem freios. Aqueles dias eram um pedaço de paraíso ao seu ver.
De todos os conselhos de sua mãe para ter uma vida saudável, só
cumpriu com um: ao pegar num pote de
sorvete, sempre averiguava a data de validade...
Para ler antecipadamente todos os contos, clique neste link do site
(Imagem:
quinta-feira, 25 de julho de 2019
Carolina, A Alta
Conto de hoje: Carolina, A Alta, da antologia Imprevistos de Uma Viagem Cotidiana, de Mary Difatto.
Toda quinta-feira, mais uma publicação.
Bons "imprevistos de viagem"!
CAROLINA, A
ALTA
Saíra de frente do
espelho, há poucos minutos, a complexada Carolina.
Tinha ido verificar se a espinha perto do queixo tinha sumido, e se a
blusa do uniforme estava amarrotada.
Toda a sua dúvida fora confirmada. A espinha estava por lá, vermelha,
com uma “coleguinha” purulenta perto da boca, e a blusa tão amassada, que
aludia a um trator que a tivesse
triturado. “Eu nunca estou arrumada...”, pensou tristemente Carol. Disfarçou as espinhas com base, e a blusa,
passou de novo. Era o drama da garota dentro do
seu cotidiano.
Costumava
ser perturbada na escola por tudo: por ser magra demais, por não ter mochila
irada, por ser muito alta, mais até que os meninos, por ainda não ter namorado,
por usar óculos, por às vezes saber o que os professores perguntavam e, às
vezes, por exatamente não saber, por ser estabanada e, principalmente, por ser
tímida. Sua vida escolar estava longe de ser lembrada com saudade quando dela
saísse.
Ela só tinha 13
anos.
Nessa idade
a escola se apresenta da maneira mais cruel, quando não há o encaixe nos
padrões. Carolina se sentia uma desajustada.
Acontecia
uma gincana na escola onde estudava, que premiava o aluno ou aluna que
pontuasse com as tarefas sorteadas. No final, quem tivesse o maior número de
pontos, ganharia. Quem apenas a cumpria, recebia 5 pontos; quem cumpria melhor
que o seu concorrente, 10. Eram tarefas das mais disparatadas possíveis, onde
envolvia desde teste de conhecimento, até aspectos do dia a dia. Foi a maneira
que a diretoria criou para não ofender os discentes. Todos poderiam participar,
independentemente de posses ou sabedoria além. De alguma forma, estavam
passando a ideia de inclusão.
O prêmio era
um passeio ao Pão de Açúcar, com todas as despesas pagas, incluindo almoço e
lanche. Tinha que levar acompanhante adulto, no caso, o responsável.
Para
formular as tarefas, houve uma reunião pedagógica; seriam marcados sorteios
ocasionais destas para estabelecer o novo procedimento.
Na quarta-feira, as turmas estavam abarrotando o pátio na espera do
resultado do sorteio, que era feito na frente deles, sempre neste dia da
semana, no recreio.
–
O que será desta vez, ahn? – era a inspetora de disciplina, escolhida
para tirar o papel de uma caixa de papelão mal disfarçada com papel silhueta.
Por fora, escrito
o óbvio: “Gincana”.
A maioria riu, quando o sorteio revelou que os participantes teriam que
levar o veterinário mais idoso ainda em atividade até a terça-feira que vem.
Muitos deles confundiram o profissional que cuida de animais com o próprio pet.
–
Não posso trazer meu cachorro, não? Ele é bem velhinho... – um deles
perguntou.
Risos
mais altos passaram a ser facilmente audíveis no local. Carolina gostou.
Conhecia uma
veterinária já em idade avançada que atendia em um Posto da Prefeitura, que
vacinava, limpava, dava ração, recebia doações, resgatava animais de rua; fazia
o inimaginável para uma vida realmente digna para os chamados irracionais.
A menina
mesma cansava de levar seus muitos cães para o tratamento com aquela
profissional. Pela Prefeitura, saía mais barato; quando particular, o preço não
se alterava muito.
Na terça
seguinte, estava lá Carol e a idosa veterinária. Além de excelente no que fazia
pró animais, a senhora também gostava de gente. Quis colaborar com a menina.
Não deu outra:
10 pontos conquistados sem quase concorrência.
Só um colega
levara um homem estilo “Só cuido de bicho porque é a minha formação acadêmica”,
que mal passava dos quarenta. Sorte dupla de Carol pois até se fosse no
critério simpatia, sua convidada teria conquistado a pontuação máxima.
Gincanas
são sempre motivo de enorme disputa, ainda mais que, por mais manjado seja o
Pão de Açúcar, simboliza um passeio cobiçável, um prêmio a ser colocado na
lista.
Muitos
estudantes estavam empatados em pontuação, incluindo Carolina.
Houve uma
vez que quiseram “comprar” a menina, a única que possuía o item pedido no
sorteio. Uma raridade; por estar nessa categoria, tomou ares de relíquia.
Era um álbum
de figurinhas do pai, jogado no mofo do armário de madeira de um quarto no
quintal, tão obscuro, que a lâmpada estava cansada de não ser trocada.
O álbum
pedido tinha que ser de figurinhas, deveria ter, no mínimo, vinte anos, estar
completo e em bom estado de conservação. A observação do item era
interessantíssima: não poderia ser nada que aludisse a futebol.
Por muita
sorte dela, o pai tinha tido um gosto por coleção em sua adolescência. Foi
custoso e demorou muito, mas conseguira preencher um álbum que trazia aspectos
geográficos e históricos sobre o Brasil, de 1977. Sorte igualmente era o livro
não ter se deteriorado no meio daquele caos de folhas e ferramentas.
Sem querer
comentou com uma colega de cadeira vizinha, roedora de lápis, que o possuía,
para sua vida não ter mais sossego.
Rapidamente, os
colegas de sala descobriram que Carol existia.
Todo dia era uma “cantada” diferente, promessas de mundo de sonhos e
cores, bem irresistíveis para uma garota extremamente tímida, que via naquela
conversa, um jeito de ser integrada.
“Se você me der
o álbum, eu vou te passar cola na hora da prova!”
“Você não
liga tanto assim para essa gincana; liga? Deixa o álbum comigo, que eu te faço
um penteado irado! Você vai ficar uma gata!”
“É verdade
que você tem esse álbum mesmo? Traz aí, deixa eu dar só uma olhadinha... Se me
agradar, te pago cinco reais!”
“Carolzinha,
querida! Vem lanchar com a gente! Você está tão sozinha... Senta aqui! Gente, a
Carolzinha tem um álbum que a escola está pedindo! Ela não é uma fofa? Até
prometeu que vai me dar o álbum, né? Aí eu te dou minha bolsa de cachorrinho
dálmata, que eu descobri que você gosta...”
Tudo muito
encantador e altamente inebriante. Como saber se seria ou não apenas um embuste
enquanto ela fosse útil? Mas eram ofertas a serem pensadas (menos a da cola,
porque o garoto que lhe ofereceu, era uma cavalgadura...).
Nada se
comparava, porém, ao convite de um certo menino de quinze anos que iria para o
Ensino Médio no ano seguinte. Era um dos populares da escola, um daqueles dos
suspiros e “Ai, eu nunca vou conseguir...” Simpático, mas inatingível de um
modo geral.
A maior graça de seu convite, é que não tinha nada a ver com o
famigerado álbum, e viera de uma casualidade. Ela se sentia honrada e superior.
Bebia
ele um refrigerante na cantina e oferecera à Carol: “Quer? Pago um pra você!”
Quase
sem abrir a boca, respondeu: “Não, obrigada! Já lanchei!”
“Ah, tudo bem.” – vendo-a se afastar: – “Vai ter uma festa aqui na
quadra do colégio neste sábado, você deve saber. Vai vir?”
“Talvez. Vou
pensar...”
Naturalmente,
ela foi. Envergonhada num vestido mais curto que o usual, mas com esforço, saiu
de casa para ver melhor o seu paquera de última hora.
Rigorosos
com a segurança do colégio, mesmo os estudantes eram revistados pelos
inspetores de disciplina antes de entrarem.
Solitário,
sentado perto de um bebedouro que estava escangalhado e saía água em dois
guinchos ineficientes, estava o crush de Carol, parecendo esperá-la.
A
aproximação de ambos fora imediata, e logo estavam dançando, mesmo que ela não
soubesse dançar, compartilhando sorrisos, trocando olhares de namoro, juntando
as mãos, trocando beijos: o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto da vida
da adolescente de treze anos. Estava apaixonada; como o manual dos novatos em
romance parecia todos lerem.
Ela quase o
ultrapassava em altura, mas envergava um pouco a coluna, para não
constrangê-lo. Nada poderia estragar sua noite. Nada.
Sem disfarce, as colegas a invejaram. E os meninos enxergaram uma
beleza na garota, que usualmente vendia sem-gracice.
Na hora de
ir embora, o rapaz se oferecera levá-la em casa, ela que morava perto, e ambos
poderiam ir a pé. Ele seria buscado pela mãe mais tarde, de carro.
Ficaram se
beijando no portão, ele um pouco mais ousado, alisando-a por baixo do sutiã
rosa. Sentiu o corpo todo bailar no toque, jamais tendo nenhuma conexão com o
desconhecido como naquele momento. Um desconhecido que descobrira ali que
queria conhecer.
“Já vai entrar?
Fica mais um pouco!”
E mais uma
rodada de beijos e amassos, Carol quase perdendo o fôlego:
“Está tarde. Minha mãe vai
ficar preocupada...” – ao conseguir desapartar-se um tanto.
“Entendo.
Mas, Carol, você podia fazer uma coisa?” “O quê?” – perguntou sorrindo a
menina.
“Dava pra me
mostrar o álbum, aquele de figurinhas? Só ver, um pouquinho só...”
Carolina
era tímida, reservada, e todos os adjetivos que se aplicam a pessoas que não
são expansivas.
No entanto, tinha uma qualidade que muitos costumam ignorar em relação
aos muito quietos: era observadora.
Os tímidos têm a sensibilidade de notar a mudança mínima de um tom na
fala, de um gesto diferente que não condiz com o discurso ou a situação.
Eis ali o comentário infeliz de um adolescente idiota. Estragou a noite
de uma garota que pensava apenas em vivenciar as bonanças dentro das
tempestades de sua idade.
“Não, de jeito nenhum! Você vai vê-lo lá na terça-feira, que é dia de
eu levar para a escola...”
Com a fisionomia de desapontamento, o rapaz se despediu, sem mais
procurar Carol. Tinha investido pesado, na concepção dele, encarar uma
esquelética daquela, que nem sabia
dançar... E alta feito uma girafa! Fora um “sacrifício” imenso para o
interesseiro execrável.
Muitos álbuns
de figurinha chegaram às mãos dos organizadores da gincana, numa tentativa
desesperada dos alunos em burlar as regras do jogo.
Entretanto,
todos foram desaprovados: seus álbuns não chegavam nem a cinco anos, e nem
completos estavam.
Carolina abocanhou
10 pontos sem dificuldades, sabendo do resultado por antecedência. Só a luta de
todos para enrolá-la, já provava o valor do que tinha em mãos.
O raro álbum
de seu pai, com mais de trinta anos de existência, voltara ao quarto bagunçado
do quintal. Como consolo para o livro ilustrado, Carolina resolveu trocar a lâmpada e limpar o ambiente de vez em quando...
As espinhas
não tinham sido bem disfarçadas, mas a blusa continuava passada com desvelo. A
intuição de Carolina dizia que aquele seria um dia inesquecível.
Última rodada
da gincana.
O empate
envolvia muitos colegas, e se essa igualdade persistisse na pontuação final, a
diretoria iria sortear uma tarefa atrás de outra, até que pudesse ser realizada
ali na hora. Quem a fizesse atingindo a pontuação maior, ganharia.
Um vozerio,
até a diretora usar o microfone e pedir silêncio. Do contrário, anularia a
gincana e, consequentemente, a premiação.
Com
a paz retomada no pátio, chamou um a um dos concorrentes empatados. Carol subiu
no palco improvisado junto aos demais, com o coração aos pinotes. Todo mundo
atento ao que a inspetora diria ao microfone ao retirar o papelzinho. Até quem
não concorria mais, estava curioso.
Aquela folha de
nada, enrolada com mãos apressadas, pequena e objetiva, a primeira retirada,
sem necessidade de insistência, definiu quem iria ao Pão de Açúcar, de um jeito
tão banal, que Carolina ficou pensando se não seria uma brincadeira de muito
mau gosto de sua sina, porque ela sempre fora uma tonta que nem sabia disfarçar
umas espinhas direito.
–
“O aluno mais baixo”. Bem, vale só para quem chegou à final, ok,
galera? – explicou a inspetora. – Vamos lá medir um a um?
Apareceu uma
fita métrica de repente, mas nessa hora Carol já estava correndo pátio afora,
chorando desabaladamente. “Tinham logo que sortear aspecto físico...
Por que não
sortearam quem tinha maior espinha?”, ironizou mentalmente, entre as lágrimas
salgadas.
Descobriu
no outro dia, como dava para perceber pelo convívio, que a vencedora era uma colega meio arrogante, que
pintava os lábios como pintasse o mundo, de tão exagerada ficava a maquiagem.
Era muito baixa, e parecia que não cresceria mais, a ver pelo seu histórico
genético. O mesmo poderia se dizer de Carol, mas num contexto de uma genética
ao contrário da outra.
Sua altura
a atrapalhara ainda por muitas vezes. Um 1,86m. que não era amistoso.
Não era pelos apelidos maldosos, pelo espanto de namorados que não
gostavam de moças mais altas, porque não havia muitas sandálias delicadas de
tamanho 42, por causa da escassez de camas grandes que não deixassem seus pés para fora ao dormir quando viajava,
devido ao resumido universo de profissões que sugeriam que ela tivesse: “Você
perde tempo! Poderia jogar basquete ou vôlei”! Ou: “Por que não se inscreve num
curso de modelo?”
Carol não
queria nada disso. Só queria ser ela, a não tão tímida assim, que não precisava mais
usar óculos por ter corrigido seu astigmatismo.
Ainda
magra, porém, isso não a aborrecia. Aos 22 anos, não tinha mais espinhas.
Não era nem bonita, nem feia. Uma jovem mulher como outra, que sonha
com um futuro melhor. Era simples conseguir, e ao mesmo tempo, complexo.
Tinha se casado,
aos dezenove, com um cara que preferia mulheres bem altas.
Quando conheceu
Carol, praticamente se casou com seu 1,86m.
Ela, por sua
vez, gostou dele por ser legal. Simples, sem complexidade.
O Pão de Açúcar visitou uma vez, com a mãe, temerosa em cair. Teve que
tomar ansiolítico antes de entrar no Bondinho.
A alta com
acrofobia, uma ironia difícil de digerir.
Trabalhava sentada o dia inteiro, atendendo telefone. Daquela forma,
pouca gente sabia sobre as suas altas dimensões.
Carol tinha crescido otimista, uma diferença que saltava aos olhos de
quem a conhecera na infância e adolescência.
Nada de derrotismo. Carolina procurava ver o lado bom das situações sem
pieguice; ela tinha consciência que nem tudo eram flores.
Quando perguntavam se ela gostava de ser tão alta, dizia que não. E
logo sorria, explicando com o que tinha virado sua auto piada invariável:
“Mas ser alta tem suas vantagens. Eu não tenho dificuldade para
alcançar as alças que ficam próximas do teto do ônibus, quando viajo em pé... E
troco muitas lâmpadas sem precisar usar escada!...”
Dizia,
automaticamente, ajeitando melhor, sua sandália plataforma salto 15.
Quem quiser ler todos os contos antecipadamente, é só clicar no link do site Mary Difatto:
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